A INTRODUÇÃO DE GRAMSCI NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS: ASPECTOS METODOLÓGICOS Ana Saggioro Garcia RESUMO Este artigo busca situar a introdução do pensamento de Gramsci no debate teórico das Relações Internacionais. De forma sucinta, apresento aqui a entrada do pensamento gramsciano como crítica metodológica e epistemológica ao pensamento dominante nas teorias das Relações Internacionais, o (neo)realismo e o (neo)institucionalismo. Logo, discorrerei sobre alguns dos principais conceitos trazidos por Robert W. Cox - o conceito de estrutura, de agência ou sociedade civil e de hegemonia – e como eles se diferem das teorias dominantes. Por fim, trago alguns aspectos de pensadores marxistas críticos aos gramscianos. Argumento que o debate ainda é útil e importante para compreender as mudanças na atual fase da ordem mundial. Palavras-chave: Gramsci, Cox, Hegemonia, Sociedade civil, Teoria das Relações Internacionais ABSTRACT This article aims to situate the introduction of Gramsci's thoughts in the theoretical debate of International Relations. Briefly, I present the entrance of Gramscian thought as a methodological and epistemological critique to the dominant theories of International Relations, namely (neo)realism and (neo)institutionalism. Thus, I discuss some of the major concepts brought by Robert W. Cox - the concept of structure, agency or civil society and hegemony - and how they differ from the dominant theories. Finally, I bring some aspects brought by marxists, that are critical to (neo)gramscians. I argue that the debate is still useful and important to understand changes in the current phase of the world order. Keywords: Gramsci, Cox; Hegemony, Civil Society, Theory of International Relations 1. INTRODUÇÃO Apesar de ter sido iniciado nos anos 1980, a chamada “abordagem gramsciana” das Relações Internacionais (RI) ainda é pouco conhecida fora da disciplina, mesmo entre os diferentes estudiosos do pensador e militante comunista italiano. Socializar este antigo debate pode nos fornecer importantes ferramentas para reflexão sobre a ordem mundial hoje. Nesse ensaio, discorrerei sobre a introdução de Gramsci como crítica metodológica e epistemológica às teorias dominantes nas Relações Internacionais, a saber, o realismo, neo-realismo e o institucionalismo, usando como exemplo alguns dos principais conceitos das RI. Logo, apresentarei algumas das críticas marxistas aos "gramscianos". Busco, aqui, simplificar a leitura teórica com o objetivo de facilitar a compreensão de alunos iniciantes no debate teórico das Relações Internacionais, além de atingir estudiosos e interessados de fora da disciplina. 2. A ABORDAGEM GRAMSCIANA COMO MÉTODO EM RI/EPI Gramsci "entra" nas Relações Internacionais e na Economia Política internacional (EPI) primeiramente como uma crítica metodológica e epistemológica às teorias positivistas, que predominaram nessa área nos anos 1980, especialmente o neo-realismo. Em seu famoso artigo de 1981, “Social forces, states and world orders”, Robert W. Cox fez uma das mais influentes críticas na disciplina, baseando-se na Escola de Frankfurt, ao dividir o campo teórico entre "teorias de solução de problemas" e "teoria crítica". A premissa que permeia a distinção é a de que "uma teoria é sempre para alguém e para algum propósito", ou seja, todas as teorias advêm de uma determinada perspectiva, que deriva de uma posição em tempo e espaço, especialmente tempo e espaço político e social. As "teorias de solução de problemas" têm um viés conservador. Elas elaboram, a partir de verificações empíricas, mecanismos e princípios Artigos 109 Edição n.3, v.1 ISSN 2179-6165