1 Publicado em PAIVA, Eduardo França. Poblaciones del Brasil- Siglos XVI-XIX. In: Salvador Bernabéu Albert. (Org.) Poblar la inmensidad: sociedades, conflictividad y representación en los márgenes del Imperio Hispánico (siglos XV-XIX). 1 ed. Rubí- Madrid: Ediciones Rubeo-CSIC, 2010, v. 1, p. 407-434. POBLACIONES DEL BRASIL SIGLOS XVI-XIX Eduardo França Paiva Universidade Federal de Minas Gerais BRASIL 1. Introdução O Brasil já era bastante povoado antes de existir! Explico: antes de 1500, quando o português Pedro Álvares Cabral e sua frota aportaram em terras desconhecidas (?) do Novo Mundo, continente já então conquistado parcialmente pelos espanhóis, muitos homens e mulheres habitavam-nas. Nelas, desenvolveram sociedades e comunidades organizadas sobre diferentes aspectos, formas e estruturas. Durante muito tempo fiou-se na idéia de que esses povos eram “atrasados”, sendo tomados, às vezes, como bons e sensíveis à evangelização (“aculturação”, “civilização”) e, outras vezes, como canibais, idólatras e bárbaros. Em contraste claro com relação aos nativos da Nova Espanha (astecas e maias, principalmente) e do Peru (incas), desde a célebre carta escrita por Pêro Vaz de Caminha 1 , os nativos encontrados por eles foram descritos como gente simples, um tanto distinta dos europeus, que andava nua e afastada de Deus. Como era costume entre cronistas ibéricos da época, ao se referirem aos povos com os quais estabeleceram contatos na África e no Oriente, logo em seguida os índios americanos foram incluídos entre os que desconheciam as letras L, F e R lei, fé e rei e que, portanto, eram “naturalmente” inferiores, o que, então, justificava a conquista e o domínio dos portugueses, em nome do rei e de Roma. 2 Os nativos da costa sul do Novo Mundo eram muitos, embora não se saiba quantos ao certo. Pode-se pensar em centenas de milhares ou mesmo em milhões, espalhados pelo extenso litoral e, também, em áreas interioranas, incluindo a área amazônica, distribuídos em vários grupos. Há estimativas que variam desde algo 1 Escrivão da frota cabralina, autor da carta que anunciava oficialmente ao rei português o achamento das novas terras. Ver Caminha, 1974. 2 Gândavo, 1995.