101 ANTROPOLÍTICA Niterói, n. 35, p. 101–123, 2. sem. 2013 GUSTAVO BARBOSA* UM ANTROPÓLOGO SOB SÍTIO: PESQUISA DE CAMPO EM CAMPO MINADO (CHATILA, LÍBANO) 11 Resumo: Com base numa situação de sítio que experimentou durante sua estada no Líbano e em vinhetas etnográicas que retratam, sob aspectos diversos, a inelutabilidade da mor- te, o pesquisador relete sobre as repercussões metodológicas de sua própria vulnerabilidade no campo. Duas entrevistas frustradas du- rante a pesquisa têm conseqüência oportuna: “des-educam” o etnógrafo e forçam-no a um reposicionamento no campo, fazendo com que ele abandone veleidades de controle e poder. Tal reposicionamento faculta um “devir-Palestino” do etnógrafo e, no limite, leva-o a indagar se seu objeto de estudo, gênero, não deveria ser reconcebido, para além do enquadramento restritivo como relação de poder. Palavras-chave: Refugiados palestinos, Líbano, Chatila, métodos de pesquisa, repo- sicionamento no campo, relações de poder no encontro etnográico. 1 Este artigo é uma versão reduzida de um dos capítulos de minha tese de doutorado, ‘Non Cockights: On Doing Sex/Undoing ‘Gender’ in Shatila, Lebanon’, defendida pelo Departamento de Antropologia da London School of Economics and Political Science em janeiro de 2014. A tese trata de questões de gênero, chegada à idade adulta e agency entre jovens refugiados de Chatila, sobretudo homens. O trabalho de campo para a tese, conduzido em Chatila entre 2007 e 2009, foi inanciado pelo CNPq. * Doutor em Antropo- logia - London School of Economics and Po- litical Science, Gustavo Barbosa é antropólogo e jornalista, com Mestrado em Antropologia pelo Museu Nacional/UFRJ e Mestrado e Doutorado, também em Antropo- logia, pela London School of Economics and Political Science. Publicou, entre outros, Brigas de Galo pelo Avesso – Fazendo “Sexo” e Desfazendo “Gênero” em Chatila, Líbano (2011), pela Revista de Antropologia da USP e Back to the House – Becoming a Man in the First Palestinian Intifada, pela Virtual Brazilian Anthropology (2008).