335 Facebook, You Tube e Vida Cvica: as redes sociais sªo dispositivos de luta politica? Joªo Carlos Correia Universidade da Beira Interior jcfcorreia@gmail,com 1. Introduªo Uma das consequŒncias da apariªo da sociedade em rede foi a transformaªo estrutural da noªo de espao pœblico verificada por impacto das redes sociais num ambiente comunicativo caracterizado por uma aceleraªo significativa das trocas simblicas, induzidas pelos meios digitais, nomeadamente redes sociais e comunicaªo mvel. A anÆlise destas transformaıes implica uma abordagem crtica do conceito de espao pœblico, entendido genericamente, como instncia de interacıes simblicas em que emerge um debate colectivo entre cidadªos interessados na participaªo politica. . As redes sociais e as comunicaıes mveis, ao penetrarem na domesticidade e reconfigurarem as interacıes sociais, transformam as noıes de espao, tempo, interacªo e participaªo, gerando questıes dificilmente contornÆveis: que pœblicos se formam das novas formas de interacªo entre os privados? Qual o significado do diÆlogo pœblico nas novas condiıes de interacªo geradas por novos dispositivos e plataformas? Assim, importa verificar como Ø que as redes sociais e comunicaıes produzem impacto na prpria configuraªo da acªo pœblica. Quais sªo os modos de racionalidade presentes na sua expressividade? De que forma as trocas simblicas expressam na sua materialidade a reconfiguraªo das estruturas do espao pœblico? A fim de conferir densidade emprica  anÆlise, recorre-se nomeadamente, a exemplos proporcionados durante estudos de caso das pÆginas do facebook e vdeos do you tube durante as manifestaıes realizadas em Portugal contra as medidas de austeridade. Neste sentido, adianta-se como hiptese a existŒncia de vÆrios nveis de transformaıes: a) Nos domnios lingustico e discursivo, passando pela estetizaªo das mensagens, resultante da introduªo de formas de expressividade; b) Ao nvel da circulaªo do conhecimento, eventualmente objecto de transformaıes no modo da sua circulaªo, disseminaªo e recepªo; c) Na concepªo de poltica em que se adivinha uma sobrevalorizaªo da participaªo directa em detrimento da poltica profissional bem como o afastamento da formas consideradas cannicas que fazem apelo  deliberaªo racional: d) No plano epistemolgico, graas ao predomnio da dimensªo relacional da festa - afectiva - sobre a dimensªo racional, programÆtica e estratØgica. 2. A configuraªo epistemolgica dos debates pœblicos passa pela passa pelo conceito de espao pœblico sujeito a intensa reexame desde a sua formulaªo clÆssica por Hananh Arendt (1958) e Jurgen Habermas (1961). A primeira apresentou a esfera pœblica como um espao de liberdade onde os seus participantes se reconhecem como livres e iguais, dotados de uma disponibilidade essencial, que consiste no facto de se furtarem aos imperativos da necessidade e da preocupaªo com a sobrevivŒncia (Arendt, 1986: 32). Ser poltico, viver na polis, significava a emergŒncia do discurso como elemento de persuasªo em detrimento da fora e da violŒncia (Arendt, 1971: 26). A acªo poltica neste espao pressupunha que o agente fosse capaz de partilhar um mundo comum colocando-se no lugar de qualquer outro