1 BATEIAS, CARUMBÉS, TABULEIROS: MINERAÇÃO AFRICANA E MESTIÇAGEM NO NOVO MUNDO * Eduardo França Paiva Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil Uma antiga crença foi cultivada pela população das Minas Gerais e, sobretudo, pelos mineradores da região durante os séculos XVIII e XIX. Acreditava-se que todo minerador deveria ter uma negra Mina como concubina para que tivesse sucesso em suas atividades de extração mineral. 1 Já em 1726, o governador da Capitania do Rio de Janeiro, Luís Vaía Monteiro, observava: “E pella mesma cauza não há mineyro que poça viver sem nem hua Negra Mina, dizendo que só com ellas tem fortuna”. 2 Na verdade, a preferência dos mineradores não se restringia às escravas designadas Mina, mas incluía os escravos oriundos dessa região africana ou embarcados em algum porto dessa região, principalmente o de Ajudá. 3 Associava-se aos Mina um grande poder de descobrir ouro, o que calhava perfeitamente com o maior dos desejos de boa parcela da multidão de homens que começou a ocupar as ricas terras minerais do interior da América portuguesa a partir do final do século XVII. A entrada maciça dos Mina na região fomentou, então, essa crença. Mas guardou, também, outros significados. Esses homens e mulheres africanos, embarcados na Costa da Mina com destino ao Brasil, eram tradicionais conhecedores de técnicas de mineração do ouro e do ferro, além de dominarem antigas técnicas de fundição desses metais. Eles conheciam muito mais sobre a matéria que os portugueses, antigos parceiros comerciais dos reinos negros da África, vorazes consumidores do ouro desse continente e senhores de enorme extensão territorial no Novo Mundo. Ao que parece, o poder quase mágico dos Mina para acharem ouro e a sorte na mineração associada a uma concubina Mina eram, na verdade, aspectos alegóricos de um conhecimento técnico apurado, construído durante centenas de anos, desde muito antes de qualquer contato com os reinos europeus da era moderna. A opção dos traficantes luso-brasileiros por escravos da Mina, principalmente * Texto publicado: PAIVA, Eduardo França. Bateias, carumbés, tabuleiros: mineração africana e metiçagem no Novo Mundo. In: PAIVA, Eduardo França & ANASTASIA, Carla Maria Junho. (orgs.) O trabalho mestiço; maneiras de pensar e formas de viver – séculos XVI a XIX. São Paulo/Belo Horizonte: Annablume/PPGH-UFMG, 2002, p. 187-207. PDF Creator - PDF4Free v2.0 http://www.pdf4free.com