UM LUGAR CHAMADO FOTOGRAFIA, UMA POSTURA CHAMADA CONTEMPORÂNEA Ronaldo Entler É difícil explicar o que é a fotografia contemporânea. Alguma coisa parece ter se transformado e se consolidado nos últimos 20 ou 30 anos, mas o adjetivo “contemporâneo” não poderia ser mais problemático. Primeiro, aponta para uma fotografia que se define pelo diálogo com a arte contemporânea, tautologia que explica quase nada. Segundo, tenta dar conta de um processo que está em construção e que, no entanto, já possui uma história. Terceiro, torna absoluto um conceito que deveria se referir ao presente de qualquer momento: tudo é contemporâneo a seu devido tempo, mas às vezes parece que, daqui a cem anos, leremos nos livros que a “fotografia contemporânea” foi um movimento ocorrido do século XX para o XXI. Por fim, diz respeito a uma situação tão maleável que, com frequência, incorpora aspectos da tradição aos quais parecia se opor. Como poderíamos olhar para a produção recente e dizer que tal coisa é ou não é contemporânea? Com contornos escorregadios, resta apreender que, mais do que um procedimento, uma técnica, uma tendência estilística, a fotografia contemporânea é uma postura. Algo que se desdobra em ações diversificadas, mas cujo ponto de partida é a tentativa de se colocar de modo mais consciente e crítico diante do próprio meio. Alguns recortes são esclarecedores. Podemos reconhecer nas propostas que assumem uma direção ficcionalizante – algo bem representado nesta exposição – uma experiência fundamental para a afirmação dessa postura. Sem pretender encontrar as determinações que conduzem a fotografia até aqui, vale a pena olhar retrospectivamente para situar algumas questões diante das quais tais experiências recentes demarcam uma posição. Conhecemos bem as dificuldades enfrentadas pela fotografia no ambiente das artes tradicionais do século XIX. Curioso é que o modo como a fotografia se defendeu deixou heranças tão problemáticas quanto os argumentos de seus detratores. A ansiedade de ser reconhecida como arte gerou duas reações opostas: ora a fotografia tentou absorver forçosamente efeitos superficiais da pintura, ora buscou se fechar nos limites de sua técnica para não se confundir com outras formas de expressão, sobretudo aquelas que lhe eram hostis. Ambas as atitudes apenas contribuíram para seu isolamento, seja porque buscaram um estatuto estético que lhe fosse exclusivo. Felizmente, esse foi um problema de ordem mais retórica do que prática, e tanto os pictorialistas quanto os mais puristas deixaram boas contribuições para a posteridade. De todo modo, esse é um debate que parece ter sido sepultado pela produção recente. Reconhecemos na experiência moderna uma vocação para expandir as fronterias das linguagens