1 ANTONIO CANDIDO LÍRICO (Um projeto ético e estético para a poesia brasileira) Antônio Donizeti Pires (UNESP/Araraquara) adpires@fclar.unesp.br Introdução: Pressupostos gerais Em relação aos demais gêneros literários, a poesia lírica ocupa um lugar central na obra de Antonio Candido, que sempre a reconheceu como pilar fundamental de seu pensamento estético e crítico-teórico. Neste, o problema da lírica (inclusive apoiado na prática analítica de poemas) é dimensionado em dois eixos principais: um “árcade/romântico” (voltado para o período formativo da literatura brasileira) e outro “modernista” (que enfatiza a consolidação plena de nossa literatura). Ambos os eixos são articulados por certo “eixo intermediário”, de ligação, o qual engloba alguns estudos de Candido voltados para a poesia finissecular brasileira e/ou francesa isto é, aquela poesia que, a partir da obra de Baudelaire, ficou conhecida como parnaso-simbolista, decadentista e mesmo “realista”. O pensamento estético e crítico-teórico de Antonio Candido, ainda, desdobra- se em várias camadas significativas, assim sintetizadas: a) a poesia como agente poderoso de formação e consolidação da literatura brasileira (a própria Formação da literatura brasileira); b) a crítica de poesia e de poetas (já evidenciada na Formação, e corroborada em vários outros estudos de interpretação); c) o estudo teórico da poesia, seus problemas intrínsecos e elementos constitutivos (O estudo analítico do poema); d) em complemento, a leitura, análise e interpretação de poemas de autores brasileiros do Arcadismo ao Modernismo (a exemplo do que faz em Na sala de aula); e) o estudo comparado de poetas brasileiros e estrangeiros, na perspectiva das relações problemáticas com a matriz europeia (caso de “Os primeiros baudelairianos”, de A educação pela noite & outros ensaios), do ponto de vista temático (“As rosas e o tempo”, de O observador literário), ou de exegese desses poetas face ao tratamento que dão à natureza (“O albatroz e o chinês”, do recente livro homônimo). Nestes “Pressupostos gerais”, é preciso considerar também que há clara articulação entre os vários estratos da leitura poética levada a efeito por Antonio Candido, através da ênfase nas seguintes questões: a) a coerência da exegese poética do crítico em relação a seu pensamento estético-teórico, pois abarca poetas do Arcadismo ao Modernismo; b) o valor conferido por ele à poesia brasileira, sempre a inserindo num meio universal de conexões e, ao mesmo tempo, concebendo-a como expressão local de nosso sistema literário e social; c) enfim, as relações especiais do crítico com a poesia francesa mas não apenas com esta enquanto agente de sua formação pessoal e enquanto matriz de parte considerável da poesia que se fez no Brasil. Enfim, devo esclarecer que os resultados deste estudo (parte de uma investigação maior, em que pesquiso os projetos de Machado de Assis e de Candido para a poesia brasileira, respectivamente nos séculos XIX e XX), já foram apresentados em vários congressos nacionais e renderam dois longos ensaios, “Antonio Candido, leitor de poesia” (publicado na revista eletrônica Guará, da PUC-GO, em 2011), e “Antonio Candido, leitor de poesia fin-de-siècle” (publicado no n. 30 da revista Itinerários primeiro semestre de 2010 , do PPG em Estudos Literários da UNESP/Araraquara). Em alguma medida, tentarei para o momento refazer o percurso que estabeleci nestes dois textos, enfatizando primeiro a “poética tensiva” que marca o modus operandi do crítico mineiro, e depois perpassando sua concepção teórica de