Monstruos y Monstruosidades Facultad de Filosofía y Letras 56 ISBN: 950-29-0726-4 Monstros e monstruosidades em Lucano Rolim de Moura, Alessandro; Vieira, Brunno V. G. Departamento de Lingüística, Letras Clássicas e Vernáculas, Universidade Federal do Paraná/Brasil. O monstruoso se impõe em nossa época de um modo que lembra o romântico. Pensemos na empolgação de Hugo em seu elogio do grotesco, da dissonância e do feio, e do papel que teriam esses elementos na pintura integral de uma individualidade, na representação dos diversos lados do homem. Hoje, a individualidade, ainda ardorosamente defendida, se afirma sob o emblema do monstruoso. As mais diversas sensibilidades, individuais ou de grupo, procuram afirmar suas idiossincrasias também através da assunção corajosa de signos tradicionalmente associados à marginalidade, ao defeito, ao disforme. O que poderia ser uma marca vergonhosa é transformado em estandarte de uma nova humanidade. Um processo semelhante se vê freqüentemente nas artes: os vícios apontados pela crítica numa determinada forma artística podem vir a ser as grandes virtudes de uma estética fundada em outras bases. Mas, mesmo criados um novo homem e uma nova arte, estes ainda convivem com os códigos artísticos e ideológicos antigos, porque as épocas não se substituem, mas se sobrepõem e se misturam umas às outras, de modo que às vezes repetimos hoje palavras e gestos da França do século XIX, da Atenas de Sófocles ou da Roma no início do Império. Ainda que, certamente, esses signos se atualizem em outro contexto, e portanto se revistam de significados sempre diferentes, trazem consigo, acumulados numa crosta difícil de manusear, os sentidos que tiveram ou têm nas outras épocas e lugares.Daí, ao se arrogar o poder de anunciar uma nova forma, a monstuosidade recupera, por exemplo, um pouco da idéia de monstrum da Antigüidade clássica: trata-se de um presságio, de um sinal extraordinário apontando para o futuro. Mas a monstruosidade como doença também permanece, obviamente sem excluir o sentido de aviso sobre o porvir, já que pode ser lida como anúncio de catástrofe. A censura, a crítica acadêmica, a polícia política e a medicina continuam a luta para identificar, classificar e extirpar a monstruosidade. E mesmo os novos monstros, embora orgulhosos de seus corpos e mentes originais, sofrem com seu status ambíguo, o que advém do tratamento múltiplo que sua condição recebe nos sempre moventes espaços da ideologia. Seu amor pelo disforme é também um ódio, um ódio contra os acusadores e contra a sociedade que demoniza aquela individualidade, mas paradoxalmente esse amor se reveste de um ódio voltado precisamente à própria deformidade, de um desejo de ser (e ser visto como) normal. Insensivelmente, conforme se alteram as circunstâncias do espaço-tempo, vão se alterando as regras de normalidade e os limites do monstruoso, e o antigo réu se torna inquisidor e algoz. De modo semelhante, a busca da normalidade atinge um excesso aberratório; e a monstruosidade, desejada, concebida e moldada até as últimas conseqüências, perde-se no vazio das novidades e bizarrias apelativas da ciranda do consumo. Talvez essa não tenha sido a tônica em todas as épocas, e provavelmente são os períodos de crise mais profunda os que se mostram mais aptos a borrar os limites entre o monstruoso e o aceito como saudável e belo. O Ocidente contemporâneo, nutrido por uma cultura cosmopolita e aberto a uma multiplicidade de estímulos semióticos em quantidades e velocidades nunca antes vistas, está novamente colocando essas questões e, simultaneamente, tocando numa outra antiga pergunta-ferida: nosso mundo, não é ele mesmo uma monstruosidade? Não é o homem um câncer da natureza, um processo sem sentido, sempre transbordando suas próprias margens, sufocando a