Ciência Hoje, v. 30, n.º 175, setembro de 2001, p. 34-40 (ISSN 0101-8515) 34 COGNIÇÃO: COMO PENSAMOS O MUNDO ALDO BIZZOCCHI Docente do Programa de Mestrado em Comunicação da Fundação Cásper Líbero e do Curso de Pós-Graduação em Lingüística da Fundação Instituto de Ensino para Osasco São Paulo, Brasil Website do autor: www.aldobizzocchi.com.br E-mail: abizzocc@terra.com.br Resumo: Para conhecer o mundo à sua volta e levar esse saber a seus semelhantes, o homem precisa transformar as informações recebidas pelos sentidos (as experiências) em modelos mentais (os signos), que possam ser transmitidos através de códigos apropriados (as linguagens). Entender como esse processo se dá e quais as suas conseqüências para o indivíduo, para a sociedade onde vive e para a humanidade é o desafio que as chamadas ciências cognitivas, integradas por diferentes áreas do conhecimento, entre elas a semiótica, se propõem a enfrentar. O que distingue o homem das outras espécies animais e o levou a ter o domínio completo do planeta é todos sabemos uma coisa chamada inteligência. Esta é, fundamentalmente, a capacidade de pensar de forma simbólica, ou seja, através do uso de linguagens. Por isso, o Homo sapiens é antes de mais nada Homo symbolicus. A inteligência humana consiste na capacidade de “conhecer”, ou, em outras palavras, “construir representações mentais a partir de percepções sensoriais”. Tais representações permitem não só adquirir novos dados da experiência mas também reconhecer dados anteriormente adquiridos. Somos capazes de reconhecer um objeto que nunca vimos antes como sendo uma cadeira apenas comparando esse novo objeto aos modelos mentais que temos estocados na memória, frutos de muitas percepções anteriores. As muitas cadeiras que já vimos na vida nos permitem deduzir o que todas as cadeiras têm em comum: pés, assento, encosto, uma forma anatômica que nos permite sentar nela etc. A experiência nos permitiu construir um conceito, ou seja, um modelo mental de cadeira que nos permite reconhecer novas cadeiras apenas olhando para elas e comparando-as a esse modelo. Se o novo objeto coincide com o modelo, bingo! estamos diante de uma cadeira. Senão, procuraremos na mente outros modelos (outros conceitos), até encontrar um que coincida com o objeto percebido. Se não encontrarmos nenhum, então com certeza estaremos diante de um dado novo, desconhecido, e a descoberta dará oportunidade a um novo ato de conhecer, a partir do qual construiremos um novo modelo, ou seja, um novo conceito. A esse processo se dá o nome de “cognição”. Mas de que são feitos esses modelos mentais? Qual é a matéria-prima do pensamento? Assim como a combinação das 23 letras do nosso alfabeto permite escrever todas as palavras da nossa língua mais de 500 mil e criar outras, em um processo inesgotável, há razões para supor que os significados das palavras, ou seja, os conceitos que elas representam, também resultam da combinação de um número finito de elementos. E como o ser humano não pensa nem se comunica apenas com palavras, usando também uma infinidade de outros signos, esses elementos constitutivos da significação seriam os responsáveis por encontrarmos sentido em imagens, sons, cheiros, gestos, símbolos matemáticos, sinais de trânsito etc. As indagações sobre a natureza da significação deram origem a um campo de pesquisas que, embora relativamente recente, tem se mostrado bastante fértil: as chamadas ciências cognitivas. Trata-se acima de tudo de um campo multi e transdisciplinar, que reúne os esforços de diversas ciências, tanto humanas quanto naturais, que vão desde a biologia molecular e a genética, passando pela neurofisiologia, até chegar à psicologia e às ciências da linguagem, com a lingüística e a semiótica à frente. Este artigo apresenta uma visão geral desses esforços, através de uma análise de como o homem processa semioticamente o conhecimento do mundo e de si mesmo, ou seja, como ele processa a informação percebida através dos sentidos e a transforma em modelos mentais em