sÆculum - REVISTA DE HISTÓRIA [20]; João Pessoa, jan./ jun. 2009. 49 AS TRANSFORMAÇÕES NOS CONCEITOS DE LITERATURA E HISTÓRIA NO BRASIL: RUPTURAS E DESCONTINUIDADES (1830-1840) Valdei Lopes de Araujo 1 Este artigo estuda as mutações no conceito de literatura e na concepção de uma história literária como sintoma de transformações discursivas mais amplas centradas em deslocamento da experiência do tempo. Procura-se caracterizar estes deslocamentos como um processo geral de historicização da realidade. Paralelamente, busca-se entender como essas reflexões estético-literárias pressupunham e colaboravam para a emergência de um novo campo de experiência, que seria depois resumido em um novo conceito de história. O texto foi dividido em duas seções principais, pressupondo haver uma significativa descontinuidade entre os dois períodos analisados em cada seção. Na primeira parte são analisadas duas interpretações sobre a história literária luso- brasileira representados pelos textos “Parnaso Brasileiro” do Cônego Januário da Cunha Barbosa e “Parnaso Lusitano” de Almeida Garrett. A segunda parte do artigo está concentrada no exame do programa de uma História da Literatura Brasileira proposta nas páginas da Revista Niteroy, em especial as concepções de Gonçalves de Magalhães. Embora a distância temporal entre o “Parnaso” de Januário e os escritos de 1836 de Magalhães seja de alguns poucos anos, procura-se demonstrar que a concepção de literatura, história e a experiência do tempo são profundamente distintas. A análise que segue procura demonstrar que embora possam ser traçadas linhas de continuidade entre o projeto de Januário e o do romantismo posterior, é também possível e desejável revelar as descontinuidades entre os dois momentos/projetos literário-historiográficos. Certamente o próprio Cônego perceberia mais tarde as novas direções que a concepção culturalista de nação imporia a projetos dessa natureza, mas em 1829, ao iniciar a composição de seu Parnaso, esses instrumentos conceituais não estavam disponíveis, daí a importância de analisá-lo no contexto da geração da Independência, ainda profundamente imbuída dos ideais neoclássicos. Nesse artigo, procuramos apontar justamente para aquilo que, estando em Januário, não poderá mais ser identificado no modelo hegemônico de história literária que encontrou sua primeira síntese no texto fundador escrito por Gonçalves de Magalhães em 1836. 1 Doutor em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Professor do Programa de Pós-Graduação em História e do Departamento de História da Universidade Federal de Ouro Preto. Membro do Núcleo de Estudos em História da Historiografia e Modernidade – NEHM. Pesquisador do Projeto Temático Formação do Estado e da Nação, coordenado pelo Prof. István Jancsó – USP. Bolsista do Programa Pesquisador Mineiro, da Fapemig. Este trabalho contou com o apoio do CNPq, através de financiamento pelo edital de Ciências Humanas n o 502006.