395 Unidade do gênero e outras unidades em Aristóteles: significação focal, relação de consecução, semelhança, analogia Marco Zingano USP/CNPq Diante da omnipresença da noção de conceito a título de uma descrição de uma classe inteira por meio de características que, tomadas separadamente, são necessárias e, coletivamen- te, suficientes para determinar o pertencimento de um item à referida classe, Edward Smith e Douglas Medin cunharam a expressão “a visão clássica” (the classical view) para a denominar e a fizeram remontar a Aristóteles. As características em questão são o que podemos chamar de traços definidores de um objeto, de modo que o conhecimento por conceitos consiste em larga medida, segundo esta perspectiva, em um domínio das definições dos objetos. Esta abordagem, com efeito, apreende uma parte importante da tese aristotélica sobre o conhecimento humano. Na esteira desta caracterização proposta por Smith e Medin, eis o que se pode ler em uma obra recente de perspectiva cognitivista: Eis, então, as principais teses da visão clássica. Primeiro: conceitos são mentalmente repre- sentados como definições. Uma definição fornece características que são a) necessárias e b) cole- tivamente suficientes para o pertencimento a uma categoria. Segundo: a visão clássica argumenta que todo objeto está ou não está na categoria, sem casos intermediários. <...> Terceiro: a visão clássica não faz nenhuma distinção entre os membros de uma categoria. O que satisfizer a defini- ção é um membro da categoria como qualquer outro membro. (Aristóteles enfatizou este aspecto das categorias em particular.) Um animal que tem a característica comum a todos os cachorros é deste modo um cachorro, assim como qualquer outra coisa que vier a ter esta característica. 1 1 Gregory Murphy, The Big Book of Concepts, MIT Press 2002, p. 15. Ver também Edward Smith e Douglas Medin, Categories and Concepts, Harvard UP 1981, sobretudo pp. 22-60. Agradeço a Jean-Michel Roy por ter-me mencionado estas obras. ANALYTICA, Rio de Janeiro, vol 17 nº 2, 2013, p. 395-432