1 Gestão das fábricas na URSS: é possível um taylorismo socialista? André Coutinho Augustin 1 Introdução É consenso entre os marxistas que a construção de uma sociedade socialista pressupõe o fim da extração de mais-valor, ou seja, o fim da exploração dos trabalhadores. E para que isso ocorra, deve-se acabar com a propriedade privada sobre os meios de produção. Mas muitas vezes a crítica ao capitalismo fica limitada a isso e Marx acaba sendo visto apenas como um pensador preocupado com a distribuição da riqueza e com o fim da exploração, o que alimenta um debate com a ciência econômica burguesa (o pleonasmo usado aqui a título de ênfase) justamente no campo que a favorece, vale dizer, em um terreno em que não se discute a natureza histórica da sociedade do capital, suas contradições, sua desumanidade, sua excentricidade em relação aos sujeitos, mas simplesmente a repartição da riqueza. (DUAYER; MEDEIROS, 2007, p. 5). A crítica ao capitalismo não pode se restringir às esferas da circulação e da distribuição, ela precisa atingir também a esfera da produção. Enquanto a maior parte dos economistas vê a produção como algo dado, meramente técnico e passível de se resumir a uma função de Cobb- Douglas ou a uma matriz insumo-produto, Marx via na produção relações sociais. Na transição para o socialismo, não basta acabar com a apropriação do mais-valor pelos capitalistas, é preciso construir novas relações sociais, superando o processo capitalista de produção. E uma questão central na construção dessas novas relações sociais deve ser o controle do processo produtivo pelos trabalhadores. Não foi, entretanto, o que aconteceu na União Soviética. Os avanços econômicos foram muitos. Em poucos anos, a Rússia, que era um dos países mais atrasados da Europa, tornou-se a segunda maior potência mundial. Quarenta anos após a Revolução, os soviéticos mandavam o primeiro satélite para o espaço. Ao mesmo tempo, as condições de vida da população melhoravam, com mais acesso a serviços básicos, como educação e saúde. Se no início do século XX a expectativa de vida na Franca era 48% superior à russa, ao final dos anos 1950 já era apenas 7% superior. Mas dentro das fábricas as coisas não mudaram muito e a adoção de tecnologias e métodos de gestão burgueses se tornou dominante: Na prática, a industrialização soviética imitava o modelo capitalista; e à medida que a industrialização avançava, a estrutura perdia seu caráter provisório e a União Soviética acomodava-se a uma organização do trabalho diferente apenas em pormenores em relação aos países capitalistas. Assim, os trabalhadores soviéticos carregam todos os estigmas das classes trabalhadoras ocidentais. No processo, o efeito ideológico se fez sentir em todo o 1 Mestre em Economia pelo IE/UFRJ. E-mail: andreaugustin@gmail.com