Rev. bras. paleontol. 15(3):xxx-xxx, Setembro/Dezembro 2012 © 2012 by the Sociedade Brasileira de Paleontologia doi: 10.4072/rbp.2012.3.xx 1 ESPÍCULAS DE ESPONJAS VS. VARIAÇÕES DO NÍVEL RELATIVO DO MAR NA REGIÃO DE IGUAPE, SUDESTE DO BRASIL KAREN CRISTINA SILVA Programa de Pós-graduação em Geograia Física, FFLCH, USP, Rua do Lago, 717, 05508-080, São Paulo, SP, Brasil. kcssilva86@gmail.com MAURO PAROLIN Laboratório de Estudos Paleoambientais, FECILCAM, Av. Comendador Norberto Marcondes, 733, 87303-100, Campo Mourão, PR, Brasil. mauroparolin@gmail.com WALTER MARESCHI BISSA Museu de Arqueologia e Etnologia, USP, Av. Prof. Almeida Prado, 1466, 05508-070, São Paulo, SP, Brasil. walbissa@gmail.com ABSTRACT – SPONGE SPICULES AND CHANGES IN SEA LEVEL IN THE IGUAPE REGION, SOUTHEAST BRAZIL. Sponge spicules recorded in peaty sediments obtained by coring (520 cm depth) was analyzed in order to detail the paleoenvironmental changes in the lower course of the Ribeira de Iguape River (Iguape/SP - 24º34’17”S/47º37’33”W) in southeast Brazil. The sediment core was dated at three horizons using radiocarbon dating as follows: (i) 6,240± 30 years BP at 430 cm; (ii) 4,500± 25 years BP at 225 cm and (iii) 2,920±25 years BP at 145 cm. Gemmoscleres of the continental sponge Oncosclera navicella (Carter) and microscleres of Corvoheteromeyenia sp. were identiied, as were spicules of marine sponges, but these could not be determined to the species level. The variations in the content between of marine and continental sponge spicules indicated: (i) a phase with a predominance of freshwater lows when sea level was lower than at present prior to 6,240 years BP; (ii) a phase of marine transgression that started at least 6,240 years BP; (iii) a phase with large luctuations in sea level between 6,240 and 4,500 years BP; and (iv) a phase with a predominance of freshwater lows between 4,500 and 2,920 years BP. The results also suggest a possible change in the direction of the channel of the Ribeira de Iguape River to the west of the study site during the Holocene. Key words: continental sponges, marine sponges, paleoenvironments, coastal plain. RESUMO – Foi analisada a presença de espículas de esponjas em sedimentos turfosos visando detalhar as mudanças paleoambientais na região do baixo curso do rio Ribeira de Iguape (Iguape/SP - 24º34’17”S/47º37’33”O), sudeste do Brasil. O testemunho de sondagem (520 cm de profundidade) foi datado por 14 C, como segue: (i) 6.240±30 anos AP (430 cm); (ii) 4.500±25 anos AP (225 cm); (iii) 2.920±25 AP (145 cm). Identiicou-se gemoscleras de esponjas continentais da espécie Oncosclera navicella (Carter) e microscleras de Corvoheteromeyenia sp. Também foram detectadas espículas de esponjas marinhas, no entanto, sem determinação especíica. As variações entre o conteúdo de espículas de esponjas continentais e marinhas indicam: (i) luxos de água doce com mar mais baixo que o atual, posterior há 6.240 anos AP; (ii) fase de transgressão marinha iniciada há pelo menos 6.240 anos AP; (iii) fase com grandes oscilações do nível do mar entre 6.240 e 4.500 anos AP; (iv) fase com predomínio de luxos de água doce entre 4.500 e 2.920 anos AP. Os resultados também sugerem possível mudança do canal do rio Ribeira de Iguape, para oeste do local pesquisado, durante o Holoceno. INTRODUÇÃO Do ponto de vista geológico as turfeiras apresentam ótimas condições de preservação de microfósseis, pois se desenvolvem a partir de lagos ribeirinhos em planícies de inundação ou estuários de rios, onde há abundância de água (Salgado-Labouriau, 2007). No município de Iguape, Estado de São Paulo, Bissa (1998) estudou uma turfeira localizada na Fazenda Boa Vista, com profundidade de 285 cm. Naquele trabalho o autor detectou mudanças significativas nas condições ambientais que podem ser caracterizadas como segue: (i) entre 4.400-3.300 anos AP o clima foi mais úmido e próximo ao atual; (ii) a partir de 3.300 anos AP até os dias atuais os resultados sugerem expansão da loresta tropical costeira (clima quente e úmido). Posteriormente, Ybert et al. (2003), estudando a mesma área, demonstraram que o clima permaneceu estável, i.e., as oscilações climáticas não foram suicientes para provocar grandes perturbações na vegetação da região, onde formações lorestais foram sempre predominantes. Visando obter informações mais detalhadas dos paleoambientes desta área, foram realizadas novas campanhas para a amostragem de outra coluna estratigráica na turfeira supracitada, onde foi recuperado um testemunho de 520 cm. Karen Silva.indd 1 23/12/2012 13:00:13