1                  ! 1 Edmundo Pereira Essas cerimônias duraram cerca de duas horas e durante esse tempo os quinhentos ou seiscentos selvagens não cessaram de dançar e cantar de um modo tão harmonioso que ninguém diria não conhecerem música. Jean de Lery, 1576 Em sua etimologia mais aceita, a palavra toré (ou torê) já nos remete ao fenômeno musical: vindo do tupi to’rë, que literalmente seria traduzível por ‘torto’, designação dada a um instrumento de sopro ou buzina que teria essa forma, feito de alguma variedade de bambu, couro de jacaré ou barro. Em uma segunda acepção, mais recente, o termo designaria a dança circular afro-ameríndia em que este seria tocado (Houaiss, 2001; Ferreira, s/d; Cunha, 1982). A primeira referência ao instrumento é encontrada por Camêu (1977:32) no relato do jesuíta João Daniel de sua passagem pelo rio Amazonas em 1767: Outras das suas gaitas mais affamadas são de taboca, certo genero de cannas tão grandes e grossas que dellas se fazem optimas escadas de 50, 60 e mais palmos de comprimento, como em seu logar direi. (...) Chamão-nas toré e os flauteiros para poderem animar tais almanjarras são grandes beberrões; mas ordinariamente só as tocão nas suas beberronias. Spix e Martius (Id.ib.:35) de sua passagem pelo rio Negro em 1818, entre os Carauú, referem-se ao boré, “grande trombeta de caniço, de som rouco”. Entre os Mura, apontam (Id.ib.:36) que “a aproximação do inimigo é assinalada pelo turé, instrumento de sons roufenhos”. Este apresentaria em uma de suas extremidades um pequeno orifício no qual um pedaço de bambu funcionaria como uma lingüeta. Referência similar é ainda encontrada por Camêu (Id.ib.: 274) no trabalho de Nimuendaju, entre os Timbira em 1926, sobre os torés ou turés, neste caso um conjunto de 5 instrumentos de sopro a que o antropólogo classificou como “clarinetas”, descritas como “bambu provido de lingüeta batente, mas somente dando um som”. Em sua introdução ao estudo da música indígena brasileira, obra de referência, a antropóloga classifica então a toré dentro dos instrumentos de sopro feitos de bambu com palheta ou lingüeta (Id.Ib.:244). 2 Em todos os casos citados, o uso do instrumento estaria estreitamente relacionado com o acompanhamento de dança circular coletiva. Não encontramos ao longo do trabalho de Camêu (Id.Ib.:17) dados musicológicos advindos de fora do contexto amazônico, antes isto parece não estar no foco da antropóloga, uma vez que nas demais regiões do Brasil, “daquelas tribos encontradas pelos primeiros colonizadores, pelos Em: GRÜNEWALD, Rodrigo. Toré: regime encantado dos índios do nordeste. PE: Massangana, 2005.