1 1 AUTOCONSCIÊNCIA E REFLEXÃO RESUMO Esse artigo consiste em uma avaliação crítica da tradicional teoria da reflexão no quadro geral de uma teoria da autoconsciência, tomando por base uma antiga crítica a essa mesma teoria proposta por Tugendhat (1979). Defendo aqui duas teses. Sustento, em primeiro lugar, que o problema da circularidade que motiva a crítica de Tugendhat pode ser facilmente formulado no âmbito da abordagem linguística proposta por Tugendhat, segundo a qual a autoconsciência tem a forma de um saber proposicional imediato em primeira pessoa. Sustento, por último, que esse círculo pode ser facilmente rompido quando assumimos que as formas mais básicas de atitudes de se são isentas de um componente identificador. INTRODUÇÃO O problema central da autoconsciência emerge a partir do que do que Henrich denominou “teoria da reflexão” <Reflexionstheorie> (Henrich, 1967). Sua característica essencial consiste na concepção do fenômeno da autoconsciência como o resultado de um ato do pensamento que se volta sobre o próprio sujeito de tal ato <Sichzurückwenden> tomando-o como seu objeto. O primeiro a tomar ciência dos problemas gerados por tal teoria foi Fichte. Se a autoconsciência for entendida como o resultado de um ato de reflexão, a referência consciente a si mesmo não seria bem sucedida a menos que o indivíduo que reflete soubesse de algum modo que ele próprio é quem está realizando o ato de reflexão. Assim o teórico da reflexão se veria às voltas com o seguinte dilema. Ou bem seria necessário um ato de reflexão de segunda ordem (no sentido de que eu sou o indivíduo realizando o ato de reflexão original) e esse ato exigiria, por sua vez, um outro ato de ordem superior e, assim, indefinidamente. Ou bem a consciência de si seria dada no próprio ato de reflexão. Ora, mas como a consciência de si deve resultar da realização