1 CÂNONE REALISTA E DISCURSO DE IMPRENSA Ana Teresa Peixinho CEIS20 - UNIVERSIDADE DE COIMBRA 1. Escritores de oitocentos e imprensa Na conhecida carta-prefácio a Azulejos do Conde de Arnoso, datada de 1886, Eça de Queirós alarga-se em interessantes considerações sobre as novas tensões que regiam a relação entre o escritor/autor e os novos públicos, nesse conturbado final de século, em que o aparecimento de «uma multidão azafamada e tosca que se chama o “público”» veio alterar radicalmente o papel do escritor no processo de comunicação literária, bem como as suas relações com os leitores: Essa coisa tão maravilhosa, de um mecanismo tão delicado, chamada o indivíduo, desapareceu; e começaram a mover-se as multidões, governadas por um instinto, por um interesse ou por um entusiasmo. Foi então que se sumiu o Leitor, antigo Leitor, discípulo e confidente, sentado longe dos ruídos incultos sob o claro busto de Minerva, o Leitor amigo, com quem se conversava deliciosamente em longos, loquazes Proémios: e em lugar dele o homem de letras viu diante de si a turba que se chama o Público, que lê alto e à pressa no rumor das ruas (Queirós, 2009: 189). Estas palavras expressam uma reação bem característica dos homens de letras oitocentistas às profundas alterações do espaço público finissecular, às quais não é alheia a massificação da imprensa. Segundo Costa Dias, em artigo dedicado ao espaço público oitocentista português: Vislumbrava-se uma nova época do jornalismo que estas palavras sumárias de Luís Augusto Palmeirim sentenciaram («Folhetim», Revolução de Setembro, 8 Jul. 1962): «Escrever com ideias é uma cediça banalidade.» Doravante, a ideia estava em dar à escrita jornalística o sabor comum das banalidades. (Dias, 2011b) 1 1 Artigo no prelo, gentilmente cedido pelo autor, Luís Costa Dias, a quem agradecemos.