Ana Teresa Peixinho O modo epistolar e o debate público e privado: a carta nos séculos XVIII e XIX 1 O modo epistolar e o debate público e privado: a carta nos séculos XVIII e XIX Ana Teresa Peixinho FLUC / CEIS20 1. Problematização Um dos séculos mais importantes na construção da modernidade foi indiscutivelmente o século XVIII, século das Luzes, da consubstanciação de valores fundamentais como a liberdade, a democracia, a igualdade. É também este o século do nascimento do espaço público, de reconfiguração das esferas pública e privada, do nascimento da imprensa de opinião, dos cafés, teatros e tantos outros espaços sócio‐discursivos responsáveis pela criação de uma opinião pública. Numa das suas primeiras obras sobre a constituição do espaço público, Jürgen Habermas localiza no século XVIII um período crucial no nascimento da esfera pública, estreitamente ligada à burguesia e à Literatura. Embora esta obra tenha merecido inúmeras críticas e uma recepção pouco consensual, que inclusive terão levado o autor a redefinições posteriores, ela permanece um marco incontornável no estudo do espaço público e interessa‐nos para o tema que desenvolveremos, pois problematiza um conjunto de questões pertinentes sobre as nem sempre claras relações entre o público e o privado, demonstrando este período da História europeia está associado “ao crescimento da cultura urbana – enquanto nova arena de uma vida pública localmente organizada em concertos, teatros, óperas, salas de leitura ou museus – e ao desenvolvimento de uma nova infra‐estrutura de comunicação social – onde se encontram a imprensa, os cafés, clubes ou as tabernas – no qual se deu uma espécie de desbloqueamento de determinadas possibilidades para a emancipação humana, dando origem a uma racionalidade gerada comunicacionalmente (Torres, 2009: 9). Na verdade, o nosso principal objectivo consiste em demonstrar de que forma o modo discursivo epistolar se insinuou no espaço público europeu, durante o século XVIII, e de que modo por ele se foi construindo um cânone literário novo que, embora reconhecidamente pobre em Portugal, conheceu noutros países uma fortuna considerável. Referimo‐nos ao romance epistolar, apontado por Habermas como uma das formas literárias que sintomaticamente reflecte a mudança de paradigma e de configuração do espaço público setecentista. Está sobejamente estudada a projecção deste subgénero nas literaturas francesa e inglesa, onde nomes como os de Rousseau ou de Richardson