Na pele de jornalista inventando figuras: Personagens em génese no Distrito de Évora Ana Teresa Peixinho FLUC / CEIS20 1. O Distrito de Évora: laboratório de ensaio Qualquer estudo dedicado à obra paraliterária 1 de Eça de Queirós passa necessariamente pelo remoto ano de 1867, em que o então jovem escritor se demora sete meses na capital alentejana de Évora, em busca de um caminho e à procura de uma vocação. Sem nunca ter tido experiência profissional digna de nota e praticamente acabado de sair dos bancos da vetusta universidade de Coimbra, ei-lo à frente de um jornal regional, dirigindo, compondo, escrevendo e orquestrando, totalmente só, uma folha de quatro páginas, formato in-folio 2 , bissemanal, de nome Distrito de Évora (D.E.), 3 que, de janeiro a agosto, pontualmente veio a público, sem falhas ou interregnos. 4 Não fosse o renome adquirido posteriormente pelo romancista ou a projeção e robustez da sua obra literária, nunca este jornal teria saído dos arquivos, nem teria sequer lugar na história da imprensa de um século em que, para mais, as publicações se multiplicavam um pouco por todo o país. “Só um livro é capaz de fazer a eternidade de um povo” (Queirós, 2009: 201), comentaria Eça no 1 Entendemos por paraliteratura “todas as formas não canónicas de literatura (autoajuda, folhetins romanescos, literatura cor-de-rosa, romance ultra-light, literatura de cordel, literatura oral e tradicional, banda desenhada, literatura marginal, pornográfica, policial e popular, etc.) que em regra não são aceites por certos eruditos, certas instituições académicas ou certos meios de comunicação. A vantagem da designação paraliteratura (em vez de infraliteratura) reside no tom não depreciativo que o prefixo para- tem, uma vez que remete para tudo aquilo que fica na margem de e não necessariamente tudo aquilo que não entra na categoria de um clássico, por exemplo” (Ceia, s/d). 2 O século XIX assiste à alteração da apresentação gráfica dos jornais e é nesta época que “o formato dos jornais evolui do pequeno formato (in-4º, como os livros da época) para um tamanho maior (in- folio), permitindo a divisão em várias colunas, e seguindo o tradicional processo do «chouriço».” (Crato, 1992: 38). 3 Por uma questão prática, a partir de agora usaremos estas iniciais para nos referirmos ao jornal Distrito de Évora. O D.E. é um jornal bissemanal, com saída às quintas-feiras e domingos, de aspeto e imagem gráfica sóbria e pouco cuidada, semelhante aos restantes jornais da época. De quatro páginas, formato in-folio, o Distrito de Évora convida a uma leitura vertical, dada a disposição da massa de texto em quatro colunas por página. 4 “A coleção que reúne todos os números publicados do DE, sob a direção de José Maria Eça de Queirós, é composta por cinquenta e oito números de um jornal bissemanário (saído à quinta-feira e ao domingo), publicado ininterruptamente desde o dia 6 de janeiro de 1867 até ao dia 28 de julho do mesmo ano. No entanto, a Biblioteca Nacional e a Biblioteca de Évora incluem nessa coleção mais números correspondentes às edições que, apesar do fim da colaboração do escritor, ainda apresentam textos da sua autoria. Em todos os números saídos até ao dia 25 de agosto, foram publicados textos da autoria de Eça de Queirós, embora a sua responsabilidade editorial tivesse já cessado e apesar da edição do dia quatro desse mês abrir com uma declaração a negrito, em que o escritor anunciava a cessação de funções diretivas e redatoriais e punha fim à sua colaboração” (Rodrigues, 2008: 22).