Criação & Crítica 13 | loucura Estética e ontologia em História da Loucura 113 ESTÉTICA E ONTOLOGIA EM HISTÓRIA DA LOUCURA Gabriel Pinezi 1 RESUMO: O presente artigo pretende investigar como Foucault reflete, em História da Loucura, sobre o estatuto ontológico da loucura por meio de ideias provenientes da ontologia da obra de arte. Neste sentido, me atentarei ao diálogo entre Foucault, Nietzsche e Blanchot, mostrando como os três pensam a questão do ser da obra de arte sempre em oposição a uma razão dialética. PALAVRAS-CHAVE: loucura, ontologia, estética, tragédia, autonomia. ABSTRACT: This essay examines how Foucault conceives the ontological statute of madness based on ideas that belong to the ontology of the work of art. I will focus my analysis on the intersections between Foucault, Nietzsche and Blanchot, showing how they always oppose the being of the work of art to the dialectical reason. KEYWORDS: madness, ontology, aesthetics, tragedy, autonomy. A crítica literária contemporânea deve muito a Foucault, mas de uma forma estranha. Entre a publicação de História da Loucura, seu primeiro livro, e A Arqueologia do Saber, texto que fecha sua fase arqueológica, uma longa e prolífica investigação é dedicada à literatura. E, no entanto, seu legado no campo da teoria literária se deve muito mais a uma problematização do estatuto histórico-político do discurso, que tomou formas mais claras após o abandono da questão literária per se. As investigações que o conduziram à tese de As Palavras e as Coisas de que a literatura moderna é aquela que busca incessantemente expressar o ѣser da linguagemѤ nos parecem já tão inúteis se comparadas com as análises de Vigiar e Punir, onde a ontologia da linguagem dá lugar a uma analítica do poder e do discurso. Trata-se, na verdade, de um fenômeno global, que não diz respeito exclusivamente à recepção da obra foucaultiana. Depois do canto do cisne do estruturalismo, nós críticos fizemos o possível para excluir da literatura a questão literária. Apoiamo-nos cada vez mais em conceitos que, muitas vezes, não dão conta da especificidade do texto literário, reduzindo questões estéticas delicadas e complexas a uma certa simplicidade que limita a criação ao objeto socialmente construído que é o livro, a escrita a uma prática política, a linguagem a um mero reflexo de determinadas situações históricas. Em meio a este caminho geral que a crítica tomou, o Foucault que nos ajuda a entender a literatura, hoje, é paradoxalmente aquele que não pensa mais a questão literária. O fato de que o conjunto dos textos foucaultianos sobre a literatura tenham sido esquecidos em favor de conceitos mais úteis à análise histórica e sociológica aponta para esta tendência de exclusão mútua entre as duas áreas da crítica literária. Tal dualismo extremo entre ѣestéticaѤ e ѣsociologiaѤ – para usar estes termos de uma maneira genérica, sem implicações conceituais em nada contribui para a crítica literária. Principalmente para aquela que se interessa pela obra de Foucault. Se fôssemos bons leitores de sua obra, não poderíamos sequer separar a questão estética dos problemas históricos e sociológicos. Ainda mais no caso específico de compreender História da Loucura, um livro que requer de seus leitores certo tato para ambas as áreas do conhecimento. Isto 1 Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Londrina. Desenvolvi pesquisa sobre o processo de criação de Jack Kerouac na Universidade de Columbia e na Biblioteca Pública de Nova York com auxílio de Bolsa PDSE CAPES - Proc. 7575/13-0. Agradeço imensamente à contribuição de meus amigos/mentores Marcos Nalli, Renan Pavini e Marta Dantas; sem o apoio pessoal e a afinidade intelectual com que eles me presentearam, este ensaio não existiria. Contato: gabrielpinezi@gmail.com