Silvio Ferraz A produção acadêmica do compositor: entre prática e conceito UFRN, Natal 2012 ___________________________________________________________________________________________________________ 1 A produção acadêmica do compositor: entre prática e conceito Silvio Ferraz (UNICAMP; Grupo de Pesquisa em Criação Musical-CNPQ) Palestra realizada no evento O conceito de Pesquisa na Pesquisa em Artes; Inst.promotora/financiadora: CAPES/UFRN De um modo geral as áreas práticas das artes, dentre as quais a composição musical, são espaços interdisciplinares, com implicações conceituais e técnicas, que colocam em jogo diversas áreas de conhecimento bem como as outras práticas artísticas. No universo da arte todo material facilmente se transforma em ideia poética. Porém cada material tem sua resistência e impõe suas regras, com o que facilmente uma aproximação poética pode transformar-se em discurso de legitimação. Visando ir além desta relação de legitimação, e dar ênfase à criação musical enquanto produto de estudos acadêmicos, este pequeno artigo relata um pouco das práticas adotadas no Grupo de Pesquisa em Criação Musical (CNPQ/Unicamp) no qual o estudo da composição musical se dá dentro de um jogo bastante complexo que articula filosofia, biologia, física, literatura, linguística, as tecnologias eletrônicas e digitais, e técnica composicional (implicando aqui aspectos analíticos e históricos da música). O que esta múltipla implicação determina é a necessidade de espaços e sistematizações para pesquisas que articulem domínios tão distintos, de modo que tal interação se dê de fato sem anular a força própria ao domínio da criação: evitando assim cair na esterilidade dos domínios, seja técnico seja conceitual, de pruras elucubrações. Este artigo traz anotações dispersas sobre uma prática que tenho adotado na condução de pesquisas de pós- graduação, mestrado e doutorado, no domínio da composição musical. Quando começamos a falar sobre composição musical ou, de um modo geral sobre criação artística, não temos como fugir das questões interdisciplinares que atravessam tais práticas. E, pensando em tal interdisciplinaridade, dois nomes de artísticas do século XX são referências quase que obrigatórias: Paul Klee e Iannis Xenakis. De um lado o pintor e violinista, de outro o arquiteto e compositor. Mas também temos de pensar que a interdisciplinaridade que atravessa os dois casos é bastante específica: Klee se vale da música e do som como imagem visual, Xenakis das linhas da arquitetura e da matemática como imagens sonoras. Dois artistas que encontram as imagens para suas criações em domínios que não são aqueles próprios de suas artes: a pintura e a música. Dois domínios aparentemente distantes: o olho e o ouvido; o espaço e o tempo. Tanto em um quanto no outro, a relação entre os domínios distintos não é ilustrativa. Buscando outras duas referências, pensaria em Leonardo da Vinci e Olivier Messiaen. Leonardo e seus estudos de anatomia, não para criar um tratado de medicina mas para um estudo do movimento, da vida que molda um corpo. Messiaen e a ornitologia, não para realizar um catálogo de pássaros mas para