1578 Original Article Biosci. J., Uberlandia, v. 30, n. 5, p. 1578-1587, Sept./Oct. 2014 A COMUNIDADE DE BEIJA-FLORES E AS PLANTAS QUE VISITAM EM UMA ÁREA DE CERRADO RALO DA CHAPADA DIAMANTINA, BAHIA, BRASIL THE HUMMINGBIRD COMMUNITY AND THE PLANTS WHICH THEY VISIT AT A SAVANNAH IN THE CHAPADA DIAMANTINA, BAHIA, BRAZIL Caio Graco MACHADO 1 1. Professor, Doutor, Laboratório de Ornitologia - LABIO, Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana - BA, Brasil. caiogracomachado@gmail.com RESUMO: Na Chapada Diamantina, porção norte da Cadeia do Espinhaço, ainda é escasso o conhecimento sobre as comunidades de beija-flores e das plantas que visitam, sendo que os registros disponíveis são de áreas de campo rupestre e caatinga. Este estudo objetivou identificar a troquilofauna de uma área de cerrado ralo da Chapada Diamantina, Bahia, reportando sua sazonalidade e interações agonísticas, além das espécies de plantas que exploram, considerando seus atributos florais e sua fenologia de floração. Os dados foram coletados no município de Mucugê, de outubro de 2005 a agosto de 2006, durante expedições bimestrais em área de cerrado ralo, denominado localmente como “Gerais de Mucugê” (13º 07’15,7”S; 41º 34’53,6”W). Foram registradas quais as espécies de beija-flores ocorrem, sua sazonalidade, suas interações agonísticas inter e intraespecíficas, quais as espécies de plantas visitam, seus atributos florais (morfometria floral, tipo e coloração da flor, concentração de néctar) e seu período de floração. Oito espécies de beija-flores foram registradas: Phaethornis pretrei, Chlorostilbon lucidus, Heliactin bilophus, Eupetomena macroura, Colibri serrirostris, Calliphlox amethystina, Chrysolampis mosquitus e Anopetia gounellei - as três primeiras, residentes na área. Apenas 21 interações agonísticas foram observadas, nas quais Heliactin bilophus esteve envolvido em 12 delas. Esta espécie de beija- flor forrageou o maior número de espécies de plantas (nove espécies), das quais cinco espécies são ornitófilas, e foi considerada a espécie organizadora desta guilda de polinizadores nesta área. Onze espécies de plantas foram utilizadas por beija-flores, das quais sete ornitófilas. O padrão fenológico de floração estimado foi sequencial e contínuo, garantindo recursos aos beija-flores residentes durante todo o ano. PALAVRAS-CHAVE: Fenologia de floração. Ornitofilia. Recursos florais. INTRODUÇÃO Os beija-flores desempenham importante papel na reprodução de diversas espécies de plantas tropicais, apresentando, muitas vezes, associações com elevado grau de especialização (LINDBERG; OLESEN, 2001). No Brasil os estudos sobre as comunidades de beija-flores e das espécies de plantas cujas flores visitam, considerando seus aspectos sazonais e fenológicos têm aumentado nas últimas duas décadas, porém, na região Nordeste ainda são poucos os estudos sobre estas aves e seus recursos florais (e. g. MACHADO; LOPES, 2002, 2003, 2004; LEAL et al., 2006; COLAÇO et al. 2006, MACHADO et al., 2007; MACHADO, 2009; SANTANA; MACHADO, 2010; NOLASCO et al., 2013); As investigações sobre a utilização de plantas ornitófilas e não ornitófilas como recursos para os beija-flores têm demonstrado que estas últimas podem representar significativa porção em sua dieta, com porcentagens variando de cerca de 30 a 70%, havendo influência de diversos fatores, como a competição, a disponibilidade de recursos e a sazonalidade (LEAL et al., 2006; MACHADO et al., 2007; MACHADO, 2009; MACHADO; ROCCA, 2010). Na Chapada Diamantina, porção norte da Cadeia do Espinhaço, ainda é escasso o conhecimento sobre os beija-flores e a comunidade de plantas que visitam, sendo reportados estudos realizados em áreas de campo rupestre e caatinga (MACHADO et al., 2007; MACHADO, 2009; SANTANA; MACHADO, 2010). As áreas de cerrado ralo da Chapada Diamantina, devido ao seu relevo planiforme, tem sido alvo de inúmeros empreendimentos agrícolas mecanizados, do tipo “pivô central”. Este tipo de atividade econômica, em larga escala, tem dizimado grandes áreas deste tipo de vegetação, sendo considerado, juntamente com o fogo, uma grande ameaça para este tipo de ambiente (CARVALHAES; MACHADO, 2008). Neste contexto, este estudo objetivou investigar quais as espécies de beija-flores ocorrem em uma área de cerrado ralo da Chapada Diamantina, observando seus padrões sazonais e qual a comunidade e a fenologia de floração das espécies de plantas que exploram. Received: 20/05/13 Accepted: 05/05/14