1 Patrimônio e memória: considerações sobre os bens culturais Pedro Paulo A. Funari 1 Introdução Uma longa tradição historiográfica considera que não, ancorada em interpretações normativas da sociedade antiga, que seria caracterizada pelo arreglo, pelo compadrio, pela cooptação. De onde vem essa noção de uma sociedade harmônica? Em grande parte, provém da compreensão do funcionamento da sociedade contemporânea, que também ela seria fundada em alianças, em redes de trocas que a todos manteria enredados, em interação. A sociedade é entendida como uma koinonia (cf. Aristóteles, Política 1252 a 7), uma comunidade de parceiros que compartilham valores em um todo homogêneo (cf. Aristóteles, Política 1328 a 21). Essa homogeneidade social acomodaria interesses e evitaria conflitos e contradições, um conceito derivado dos movimentos nacionalista de cunho capitalista (Hangler 1988). Eppure nem tudo parece confirmar esse quadro róseo. Em primeiro lugar, do ponto de vista epistemológico, a noção mesma de homogeneidade (sensu moderno) social parece ser uma invenção recente, sustentáculo do estado nacional de fins do século XVIII, a serviço da formação de identidades nacionais burguesas. Tem havido, de fato, uma crescente insatisfação com tais modelos interpretativos holísticos e uma apreciação do 1 Departamento de História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, C. Postal 6100, Campinas, 13081-970, SP, Brasil, fax 55 19 35215221, ppfunari@uol.com.br