O caminho entre município e capital revela diferentes paisagens, depen- dendo do percurso que se toma. O presente artigo escolhe a via construída por textos históricos/memorialistas que elegem o município como ponto de partida para narrar sobre esse e outros espaços. Os municípios considerados na análise detêm uma particularidade: situados nos Estados de Minas Gerais e Goiás, são vizinhos à Capital Federal, Brasília 1 . Esse fato traz uma decorrência importante para a imaginação do espaço, relativa às representações recorrentes sobre Brasília e sua construção, em discursos e narrativas sobre a nação brasi- leira. No caso, a imagem da capital modernista, construída em um território vazio de civilização, cultura e progresso. Entretanto, a região que materializou o projeto modernista traz histórias de colonização e ocupação que datam do século XVII, como as relativas às cidades de Luziânia, em Goiás, ou Paracatu, no Noroeste Mineiro – passados ausentes em discursos hegemônicos sobre Brasília, porém narrados pelo pensamento e imaginação sociais formulados a partir dessas cidades e municípios, particularmente pelos escritores locais 2 . Considerando tal quadro, pergunta-se: o que diriam os que são classifica- dos pelos discursos hegemônicos como situados no vazio, descritos por au- sências e negatividades? Na busca de respostas, este artigo privilegia o diálogo 1 Os municípios enfocados são Luziânia e Formosa (GO): Buritis, Formoso, Unaí e Paracatu (MG); e Pla- naltina, atualmente região administrativa do Distrito Federal. 2 O artigo é versão modiicada do capítulo III da tese de doutorado intitulada Margens escritas: versões da capital antes de Brasília, defendida em 2003, na Universidade de Brasília (JACINTO, 2003). Andréa Borghi Moreira Jacinto Do município à capital: entre territórios e percursos de literaturas locais Revista Brasileira de Ciência Política, nº 4. Brasília, julho-dezembro de 2010, pp. 307-330.