Acervo Rio de Janeiro v. 2 n. 2 jul.-dez. 1987 Segredos de Mariana: pesquisando a Inquisição mineira 1 Segredos de Mariana: pesquisando a Inquisição mineira Luciano Raposo de A. Figueiredo Historiador da Divisão de Pesquisas do Arquivo Nacional e professor de história econômica das Faculdades Integradas Cândido Mendes Ricardo Martins de Sousa Pesquisador do convênio Arquivo Nacional/Finep Houve uma pregação apocalítica? As pessoas querem ao mesmo tempo reprimir a fornicação, proibir o jogo, as blasfêmias, os maus juramentos. expulsar os mercadores dos cemitérios, abolir as feiras nos dias de festas. levar os clérigos a uma conduta irrepreensível e os cidadãos a uma vida devota. A influência das grandes pregações se dá na razão inversa de suas ambições. Logo que o santo homem se vai. a vida retoma seu curso, sem alteração. jacques Rossiaud Ultimamente, um significativo espaço vem sendo ocupado na historiografia brasileira pelos estudos que utilizam como fontes os registros deixados pela Inquisição. Essa tendência aparece combinada com as pesquisas voltadas para certas dimensões tradicionalmente pouco valorizadas da história social, como as pequenas transgressões. perversões individuais e novos arranjos familiares. recompondo não apenas a vida material. como o imaginário nos tempos coloniais. Existem aqueles que viajam para Lisboa a fim de recolher dados sobre a ação do Tribunal do Santo Ofício no Brasil. Outros viajam menos: vão à Bahia, Mato Grosso ou Minas Gerais. Os que consultam os arquivos no Brasil pesquisam as ramificações de uma mesma rede inquisitorial. funcionando sob a alçada dos bispados que mediante visitas pastorais exerciam uma ação breve e passageira de controle sobre os desvios praticados em suas comunidades de fiéis. 1 Do pouco que se conhece até hoje sobre o volume da documentação produzida em decorrência dessa prática, sabe-se que o Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana (A.E.A.M.) em Minas Gerais. reúne o maior acervo brasileiro sobre tal modalidade da ação inquisitorial. Ali repousam cinqüenta livros contendo os registros das visitas realizadas em 81 localidades da região desde 1721 até 1802. A temática deste artigo não é propriamente inédita. Em verdade ela sucede dois outros que recentemente procuraram apresentar e divulgar o mesmo acervo. 2 De qualquer forma, a insistência é válida: afinal, a rigidez da moral católica que a Igreja buscava preservar através dos processos de devassas diocesanas acabou permitindo a recuperação, dois séculos depois, das transgressões variadas que faziam parte do cotidiano da população mineira. Emerge destes livros um rico universo, onde encontramos a prostituição, práticas mágicas e feitiçaria, jogos e batuques, a usura, blasfemadores e bêbados, apóstatas, padres solicitadores e heresias as mais diversas. Tudo aquilo, enfim, que não é permitido na sensível intolerância da Igreja e que os cientistas sociais de hoje anseiam por entender. 1 Destacaríamos os trabalhos de Luís Mou, 'O pecado na famí1ia na Bahia de Todos os Santos (1813)', em Cadernos do C.E.R.U.. nº 18, 1983, pp. 91-129, e de Fernando Torres Londoño, 'O crime do amor. O amor ilícito em uma visita pastoral do século XVIII', em Amor e família no Brasil. org. por Mariãngela d'Incal (Rio de Janeiro. Achiamé. no prelo). 2 Francisco Vidal Luna e Iraci dei Nero Costa, 'Devassas nas Minas Gerais: do crime à punição', em Separata dei tomo 39 dei anuáno de estudos americanos, Sevilha, 1982, pp. 465-474. No Brasil, este trabalho foi reeditado como 'A vida quotidiana em julgamento: devassas em Minas Gerais', em Minas colonial: economia e sociedade (São Paulo, Fipe/Livraria Pioneira, 1982), pp. 79-85. Sobre as mesmas fontes ver ainda Laura de MeIo e Sousa, 'As devassas eclesiásticas da arquidiocese de Mariana: fonte primária para a história das mentalidades', em Anais do Museu Paulista, tomo 33 (São Paulo, U.S.P., 1984), pp. 65-73. Encontra-se no prelo a revista da A.N.P.U.H., que traz um artigo de Caio César Boschi sobre as visitações em Minas Gerais.