Valdeci Rezende Borges José de Alencar e Iracema: a linguagem dos índios e a literária XXXII Convegno Internazionale di Americanistica – Perugia 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10 maggio 2010 1059 José de Alencar e Iracema: a linguagem dos índios e a literária Valdeci Rezende Borges Universidade Federal de Goiás, Brasil Um pouco de Alencar e sua obra José de Alencar foi um literato brasileiro de meados do século XIX e desempenhou também atividades de jornalista, de advogado e de político, sendo deputado em duas legislaturas pela província do Ceará e Ministro da Justiça do Estado Imperial de D. Pedro II, do qual se tornou forte opositor, sendo, por tal, recentemente, numa biografia, chamado por Lira Neto, de O inimigo do rei. Alencar nasceu, em 1829, no Ceará, e faleceu, em 1877, na cidade do Rio de Janeiro, também denominada de a Corte. Produziu uma obra literária permeada pela visão de mundo romântica e formatada pela estética correspondente. Além de romances, escreveu crônicas, textos políticos e vários ensaios críticos. Sua produção ficcional foi, por ele, em Benção Paterna, de 1872, periodizada em 3 momentos que abrangem a história, os povos constituintes da sociedade e da cultura brasileiras e os vários pontos do chão pátrio com suas especificidades históricas, sociais, culturais e naturais. Deslocou-se no tempo e no espaço para construir um grande painel da diversidade social, cultural e natural do Brasil. Nessa periodização, atrelando cada momento ao espaço natural e ao movimento histórico, cultural e político brasileiro, considerou que a fase primitiva, chamada «aborígene», tratava das lendas e mitos da terra selvagem que foi conquistada, sendo representada por Iracema e, posteriormente, por Ubirajara. O período «histórico», representando o consórcio do povo invasor com a terra americana, foi abordado em O Guarani, As Minas de Prata e depois Guerra dos Mascates. Já a fase denominada como da «infância de nossa literatura», começada com a independência política e ainda não terminada naquele momento, era vista como de formação do verdadeiro gosto nacional e tinha a proposta de «fazer calar as pretensões tão acesas de nos recolonizarem pela alma e pelo coração, já que não o podiam pelo braço» (ALENCAR J. 1965: 495). Ressaltando essa perspectiva política de formação de uma literatura nacional para consolidar a independência, considerou existir, no último período, dois momentos distintos. Um, em espaços e recantos rurais, em que não se propagava com rapidez a luz da civilização, que de repente cambiava a cor local, e outro, no espaço urbano, focado na Corte, onde tudo se transformava com ligeireza. No primeiro, encontrava-se a cor brasileira ainda em sua pureza original, sem mescla, captando o viver singelo do tempo dos pais daquela geração, as tradições, os costumes e a linguagem, com um sainete todo brasileiro, conforme expresso em O Tronco do Ipê, Til, O Gaúcho e, posteriormente, em O Sertanejo. Já no segundo, a sociedade tinha fisionomia indecisa, vaga e múltipla, natural à idade da adolescência, pois efeito da transição que se operava, e também do «amálgama de elementos diversos», como observado em Lucíola, Senhora, Diva, Sonhos D’Ouro e, depois, Encarnação (ALENCAR J. 1965: 495-6). A intenção neste texto(1) é tratar de algumas idéias de Alencar acerca de um romance da fase primitiva ou indianista, que é Iracema, lançado em 1865. Esse livro é considerado como um texto instituinte do mito de origem do Brasil, uma narrativa que funda a sociedade cearense, numa escala micro, a sociedade brasileira, numa escala um pouco mais ampla, e a sociedade americana, num olhar macro, mais geral, pois Iracema é anagrama da palavra América. O romance, com seu propósito nacionalista e preocupação com história, exalta a natureza brasileira, trata das ideias e costumes dos indígenas, mesclando personagens reais com fictícios, ao abordar a formação do Ceará e o primeiro contato do povo nativo com o invasor europeu. Da relação de Iracema, que em Tupi-guarani significa «lábios de mel», com o português Martin, nasceu Moacir, filho da dor, simbolizando o nascimento da nova sociedade. Iracema, América, é a personificação da terra nova, virgem e selvagem, invadida e conquista pelos europeus. Do consórcio do povo invasor com a terra americana, formou-se as sociedades do Novo Mundo. Alencar inicia sua narrativa de fundação dessa nova sociedade descrevendo, no primeiro capítulo, um barco aventureiro singrando veloz nos verdes mares bravios da costa cearense, desta se afastando e levando um jovem guerreiro, cuja tez branca não corava o sangue americano, uma criança e um rafeiro, que vieram à Immaginario e memoria: studi culturali. 2a parte