1 OS REGISTROS RUPESTRES NO RIO NEGRO, AMAZÔNIA OCIDENTAL: ESTADO ATUAL DOS CONHECIMENTOS, PROBLEMAS E HIPÓTESES Raoni Bernardo Maranhão Valle (1) figueiradoinferno@hotmail.com (Núcleo de Pesquisas em Ciências Humanas e Sociais [Npchs] do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia [Inpa]); (Projeto Amazônia Central – Mae – Usp). 1. Resumo Introdução: Apresentamos aqui uma síntese das informações gerais sobre a arte rupestre na Amazônia Ocidental brasileira à luz dos conhecimentos até o presente disponíveis. Focamos, sobretudo, a região do rio Negro, área praticamente inexplorada, do ponto de vista arqueológico, aonde vem sendo desenvolvido atualmente um esforço de pesquisa preliminar sobre o tema, concentrando-se inicialmente no seu baixo curso. Objetivo: O objetivo geral é o mapeamento arqueológico extensivo dos sítios rupestres da bacia, sítios a beira de rios, ainda não inventariados e muitos ainda desconhecidos. Secundariamente buscamos formas de, a partir de um conhecimento preliminar das características gráficas e ambientais desses sítios, estabelecermos hipóteses de trabalho quanto às autorias culturais e sua dispersão geográfica. Metodologia: Primeiramente estamos localizando através de prospecções fluviais nas estações secas, geo-referenciando e documentando fotograficamente sítios com gravuras rupestres (petroglifos), para em seguida analisá-los no sentido de segregar autorias culturais hipotéticas situando-as num quadro de dispersão geográfica e posteriormente tentar relacioná- las no contexto da pesquisa arqueológica amazônica mais abrangente. Resultados: Foi implementado um conjunto de prospecções para aplicação desses procedimentos numa área amostral no baixo rio Negro, a 240 km em linha reta a NW de Manaus. Entre a foz do rio Jaú (Parque Nacional do rio Jaú) e a foz do rio Unini (Reserva Extrativista do Unini), afluentes do Negro, onde foi possível a coleta de uma iconografia orientada pelas necessidades metodológicas da pesquisa. Conseguiu-se, assim, além de um banco de dados imagético específico, a formulação de duas hipóteses preliminares que seguirão para futuros testes ao longo das prospecções na bacia. Conclusão: Basicamente, trata-se de sítios rupestres sem condições de escavação, portanto, não sendo possível a obtenção de cronologias absolutamente datadas nem indiretas para esse material, nem tampouco correlação com os vestígios arqueológicos de outros sítios escavados, datados e melhor conhecidos na área (as Terras Pretas). Esses sítios rupestres poderão unicamente, a partir do conhecimento disponível no momento, ser objeto de uma análise gráfico-estilística preliminar e de um diagnóstico de conservação. O estabelecimento de relações contextuais com o registro arqueológico mais amplo da região, por enquanto, não é possível. O que se mostra como um empecilho para o conhecimento dessa parte da Pré-História amazônica e um desafio para a pesquisa multidisciplinar da arqueologia. 2. Breve histórico e síntese da bibliografia Tradicionalmente a fonte privilegiada da arqueologia amazônica tem sido o registro cerâmico. Deve-se isto a fatores como: as condições inerentes de conservação na região, a abundância de ocorrência enquanto cultura material vestigial, bem como, as linhas de pesquisa historicamente desenvolvidas na região, sistematicamente desde os anos 50 (Meggers & Evans, 1957; Hilbert, 1958) que privilegiavam a análise da cerâmica como marcador cultural das sociedades amazônicas. Edithe Pereira (2003), pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi, e pioneira no estudo arqueológico da arte rupestre amazônica, afirma que “essa opção de pesquisa gerou um desequilíbrio no nível de informação entre cerâmica e as figuras rupestres da região, o que implicou um conhecimento fragmentado da pré-história amazônica”. Na literatura não arqueológica do século XIX e começos do XX, voltada para Amazônia ocidental, encontraremos relatos de viajantes, naturalistas e antropólogos, como Alfred Russel Wallace (1979 [1889]), Ermano Stradelli (1900), Theodor Kock-Grünberg (1907, 2005[1909]) e