Religare 10 (1), 52-59, março de 2013 52 O TRÁGICO DA EXISTÊNCIA NA FILOSOFIA DE CIORAN THE TRAGIC OF THE EXISTENCE IN CIORAN’S PHILOSOPHY Rogério de Almeida Faculdade de Educação da USP ________________________________________________________________________________ Resumo: O objetivo deste artigo é refletir sobre o pensamento de Emil Cioran e as possíveis relações com uma filosofia trágica, como a de Friedrich Nietzsche e Clément Rosset. Como método, adotou-se a escrita fragmentada dos aforismos, emulando o estilo de escrita de Cioran. A reflexão aponta que Cioran é um filósofo do pior, que pensa negativamente a vida, mas também a afirma, a aprova, ainda que esta seja racionalmente injustificável. Palavras-chave: Cioran, filosofia trágica, afirmação da vida Abstract: The purpose of this article is to reflect on the thought of Emil Cioran and possible relations with a tragic philosophy, like Friedrich Nietzsche and Clément Rosset. As a method, we adopted the fragmented writing of aphorisms, emulating the writing style of Cioran. The reflection shows that Cioran is a philosopher of the worst, that consider negatively life, but also affirms, approves, even if it is rationally unjustifiable. Keywords: Cioran, tragic philosophy, life-affirming ________________________________________________________________________________ Cioran é filósofo porque seu modo de pensamento é suficientemente questionador? Ou antifilósofo por rechaçar a arquitetura das ideias, praticando marteladas de sabedoria e impertinência? Qual o grau de importância de sua escritura para seu pensamento? Ou, ainda, o que há em seu pensamento que já não foi pensado? *** Seria legítimo dizer que o pensamento é uma coisa e a escritura desse pensamento outra? Poderia uma linguagem totalmente nova dizer novamente o que já foi dito, repetindo-o até que o próprio pensamento se torne novo? Essa é uma questão que ficará para os comentadores de Cioran, para a assembleia dos historiadores, que definirão qual o espaço e o número de páginas que os manuais dedicarão ao filósofo romeno que escrevia melhor o francês que os franceses. *** Ainda sobre a escritura, dizia Cioran, logo no início de seus Exercícios de Admiração, que a desgraça de ser compreendido é o pior que pode abater-se sobre um autor. Referia-se ele ao estilo, à expressão, ao enunciado do pensamento ou à relação própria entre os parágrafos, os pensamentos e os livros? É uma questão de coerência ou de coesão? Ou ainda: porque eu deveria me esforçar para 1) compreender Cioran? 2) Torná-lo compreensível? *** Há na escrita de Cioran a mesma concisão das piadas, das fábulas, das máximas, das palavras de ordem, das epígrafes e dos epitáfios. Seu estilo é replicado dos moralistas, seu tônus não é patético, mas irônico, desestabilizador. A hipérbole de suas imagens, ou a hipotipose do