Mapas para uma Guerra Fantástica: o Entre Douro e Minho em 1762 1 Os antecedentes É relativamente recente o interesse pela cartografia terrestre manifestado pelos investigadores da História da Cartografia portuguesa. Até então, o denominado "período de ouro", correspondendo à cartografia marítima e ultramarina dos séculos XV a XVII, mereceu sempre uma maior atenção. Todavia, trabalhos atuais referentes aos séculos XVI a XVIII, tanto para Portugal peninsular como para os espaços ultramarinos, provam que a produção cartográfica terrestre coexistiu em paralelo com a cartografia náutica/hidrográfica. Assim, demonstrou-se que, já na década de 1520, a Coroa portuguesa possuía uma boa representação cartográfica do conjunto do território peninsular, mapa que se tornou protótipo de futuras imagens cartográficas do país, manuscritas ou impressas, nacionais e estrangeiras 2 . Desde cedo, os mapas converteram-se em instrumentos do Poder, utilizados para a administração do território, para o planeamento da guerra e nas negociações diplomáticas. Com a União Dinástica (1580-1640), vários cartógrafos portugueses desenvolveram importantes trabalhos de reconhecimento cartográfico na Península Ibérica, salientando-se os contributos de João Baptista Lavanha, Pedro Teixeira Albernaz e João Teixeira Albernaz. Seria, no entanto, no contexto da Guerra da Restauração (ou da Aclamação), Ƌue se pƌoduziƌia uŵa ƌevolução ĐaƌtogƌáfiĐa, pelo menos no que diz respeito à cartografia terrestre 3 . 1 Este texto foi editado na seguinte obra: SILVA, Júlio Joaquim (Coord.) Atas do XXI Colóquio de História Militar-Nos 250 Anos da Chegada do Conde de Lippe a Portugal: necessidade, reformas e consequências da presença de militares estrangeiros no Exército Português, Lisboa, Comissão Portuguesa de História Militar, 2013, p. 1049-1068. 2 Ver de Suzanne DAVEAU (2010). Este mapa, ou uma sua cópia, terá sido utilizado para se compor o primeiro mapa impresso do país (Veneza, 1561), cuja autoria se atribui a Fernando Álvaro (ou Alvares) Seco. 3 Ver o desenvolvimento cartográfico deste período em Maria Fernanda ALEGRIA et al., 2007, p. 1040- 1045.