REA, ano 2, nº 22, março 2003, ISSN 1519.6186 1 A Linguagem Escravizada Língua, História e Poder Florence Carboni & Mário Maestri 1 Sumário: o artigo dissocia-se das visões estruturalistas de linguagem neutra e linguagem única, enfatizando o caráter social, de ideológico, histórico do signo linguístico. Discute a produção- determinação performativa da língua pelas classes dominantes através da história e suas funções integrativas e de ocultação das contradições sociais, de raça, de gênero, etc. Aborda a produção de linguagem determinada pelas classes dominantes do Brasil, na Colônia e no Império, e seu uso acrítico pelas ciências sociais - “índio”, “escravo”, “tribo”, “amo”, etc. Propõe a necessidade de supressão e correção das desigualdades linguísticas e que as ciências sociais de superarem a “palavra do outro” e expressem novos conteúdos sob novo aparato categorial. “A linguagem é tão antiga quanto a consciência – a linguagem é a consciência real, prática, que existe também para os outros homens, que existe, portanto, também primeiro para mim mesmo e, exatamente como consciência, a linguagem só aparece com a carência, com a necessidade dos intercâmbios entre os homens.” MARX & ENGELS. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1989. p. 26. I. Língua, História e Poder Afirma-se comumente que a linguagem verbal constitui fenômeno social. O próprio Curso de lingüística geral, que pretende apresentar a visão de Ferdinand de Saussure sobre a língua, reitera diversas vezes tal afirmação. Porém, o consenso entre os cientistas da linguagem interrompe-se quando da definição do alcance, prioridade e implicações do proposto caráter social da língua. Dizer que a “língua é um produto social” não impediu que, em um claro paradoxo, a Lingüística estruturalista transformasse a linguagem humana em objeto abstrato ideal – langue – e se interessasse nela apenas enquanto sistema sincrônico homogêneo e rejeitasse suas manifestações concretas – parole –, supostamente impossíveis de serem apreendidas cientificamente. [SAUSSURE: 1995, 17] Para Ferdinand de Saussure e os lingüistas estruturalistas, hegemônicos durante todo o século 20, os signos lingüísticos que conformam a língua – langue – são associações “ratificadas pelo consentimento coletivo” que têm sua sede no cérebro de cada um dos falantes dessa língua. [SAUSSURE: 1995, 23.] Portanto, apesar de ser “social por natureza”, o signo seria um ente arbitrário, escapando “sempre, em certa medida, à vontade individual ou social, estando nisso o seu caráter essencial”. [SAUSSURE: 1995, 25] Assim definido, o signo lingüístico surge como algo essencialmente estranho e autônomo à prática social. Florence Carboni, talo-belga, é doutora em Liguística pela UCL, Bélgica, e professora do PPGL da 1 UFRGS, fcarboni@via-rs.net; Mário Maestri, brasileiro, professor do PPGH da UPF, maestri1789@gmail.com