cadernos de campo, São Paulo, n. 14/15, p. 1-382, 2006 É freqüente lermos, na literatura antropo- lógica, textos que não informam a idade dos nativos. As pesquisas (em geral) são feitas com adultos, o que pode ser interpretado como conseqüência da importância que nossa socie- dade confere a esta faixa etária, em detrimen- to de outros períodos – a velhice e a infância – como locus de produção de signi�cados e re�exões acerca da vida social. Tornado claro desde o início pela autora, o debate sobre uma Antropologia da criança trata de uma revisão de conceitos fundamentais que, originando-se na década de 1960, estende-se às teorias contem- porâneas, articulando uma revisão da noção de pessoa e da criação de uma antropologia da cognição. É frente a este complexo debate que opto por situar a importante contribuição que este pequeno livro (como de praxe da coleção, 60 páginas) apresenta. O convite para escrever este número da co- leção “Passo a Passo”, baseou-se em sua compe- tente – apesar de relativamente breve e recente – produção e na (não tão breve assim, 12 anos) pesquisa com crianças dentre os Kayapó-Xi- krin do Bacajá. Por tratar, em sua dissertação de mestrado, sobre a concepção de infância e aprendizado nesse contexto, traz numerosas contribuições sintetizadas (o que não quer dizer, necessariamente, simpli�cadas) a partir dessa experiência etnográ�ca. Esse terreno da disciplina só recentemente foi visto com a adequada sistematização, ainda em curso, que evita a de�nição pela negativa. Uma das principais proposições que a exposi- ção de Clarice Cohn visa é a de suprimir essa �� Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.; 60 pp. EDUARDO DULLO lacuna. Levar a sério o discurso nativo e ao me- nos tentar não constituir uma relação de po- der em relação de sentido signi�ca, neste caso, apreender o mundo social a partir da constru- ção simbólica das crianças, fazendo desta ex- periência peculiar uma diferença qualitativa ao invés de quantitativa. Seu texto preocupa-se, desde o início (e re- tomando a discussão ao �nal), em esclarecer a particularidade da Antropologia, diferencian- do-a dos mais antigos estudantes do tema: psi- cólogos, psicanalistas e pedagogos. Assim, além de uma “antropologia da criança”, a autora nos expõe sua visão do que caracteriza uma pesqui- sa da disciplina. Não é na metodologia de co- leta de dados que reside a especi�cidade, mas no cuidado com a contextualização e com os “pressupostos analíticos e no arcabouço concei- tual” (:48). Com isto em mente, ela lembra que “não podemos falar de crianças de um povo in- dígena sem entender como esse povo pensa o que é ser criança e sem entender o lugar que elas ocupam naquela sociedade – e o mesmo vale para as crianças nas escolas de uma metró- pole” (:9). Sua introdução é, portanto, mais que um preâmbulo para a discussão bibliográ�ca que vem em seguida; é a assunção de uma postura teórico-metodológica com a qual irá debater com autores e escolas. Nesse sentido, importa- se em realçar a distinção entre nature e nurture realizada por Margareth Mead na tentativa de entendimento da parcela cabível à natureza e à cultura no comportamento dos não-adultos (tendo os norte-americanos como contraponto).