Artigo Revista da Biologia (2012) 9(2): 20-27 DOI: 10.7594/revbio.09.02.05 A Teoria das Hierarquias e seus fundamentos epistemológicos Hierarchy Theory and its epistemological grounds Nei Freitas Nunes-Neto * , Charbel Niño El-Hani Departamento de Biologia Geral, Instituto de Biologia, Universidade Federal da Bahia Recebido 25abr11 Aceito 10out11 Publicado 15dez12 Resumo. A teoria das hierarquias emergiu, a partir de meados da década de 1960, como resultado de uma convergência de contribuições advindas de diversas disciplinas que compartilhavam à época um interesse pela complexidade, como economia, química e biologia. Da perspectiva da teoria das hierarquias, a complexidade não é considerada uma propriedade dos sistemas naturais em si mesmos e tampouco é concebida como uma propriedade exclusiva da mente humana, mas sim como uma propriedade das questões colocadas por nós, agentes do conhecimento, no processo de observação. A complexidade emerge, pois, na relação entre os sistemas naturais e os sujeitos cognoscentes. Este trabalho realiza uma análise dos fundamentos epistemológicos da teoria das hierarquias, tratando, sobretudo, da possibilidade de embasá-la numa visão anti-realista, como o empirismo construtivo de van Fraassen. Palavras-chave. Hierarquias, complexidade, biologia, anti-realismo. Abstract. Hierarchy theory arose in the middle of the 1960s, as a result of a convergence from contributions of diferent disciplines that shared an interest for complexity, such as economy, chemistry, and biology. From the perspective of hierarchy theory, complexity is not considered either as a property of natural systems in themselves or as an exclusive property of the human mind, but rather as a property of questions posed by ourselves, as agents of knowledge, in the observational process. Complexity emerges, thus, in the relationship between natural systems and knowing subjects. This work carries out an analysis of the epistemological foundations of hierarchy theory, mainly addressing the possibility of grounding it in an anti-realist stance, such as van Fraassen’s constructive empiricism. Keywords. Hierarchy, complexity, biology, anti-realism. *Contato do autor: nunesneto@gmail.com Introdução É um clichê entre biólogos dizer que sistemas biológicos são intrinsecamente hierárquicos e complexos. Apesar de tais airmações serem muito repetidas, em variados con- textos, raramente as expressões que nelas iguram são to- madas como objeto de uma análise mais profunda. Então cabe perguntar: o que signiica complexidade nas ciências em geral, e na biologia, em particular? O que signiica di- zer que um sistema é hierárquico? Este trabalho objetiva oferecer uma possível respos- ta a estas questões. Para isso, o caminho do argumento será o seguinte: na próxima seção, apresentaremos breve- mente algumas noções gerais acerca da teoria das hierar- quias, mais especiicamente, por meio do modo como ela interpreta o desenvolvimento de uma pesquisa cientíica. Em seguida, exploraremos as bases ilosóicas desta teoria, apontando principalmente para sua natureza anti-realista. Por ora, a im de guiar o leitor, daremos breves de- inições de alguns termos aqui utilizados, mesmo sendo discutidos em mais detalhes nas seções seguintes. Para entender o que signiica o anti-realismo, vale a pena escla- recer o que signiica, em termos muito simples e breves, o realismo cientíico. O realismo cientíico é a posição se- gundo a qual (i) a ciência objetiva construir um relato ver- dadeiro do mundo e (ii) as entidades inobserváveis (aque- las que não podemos observar diretamente com nossos sentidos, como DNA, elétron etc.) são reais. Em contraponto às duas teses acima, a posição anti- -realista assume (i) que, como uma atividade de constru- ção de modelos, e não de descoberta do mundo, a ciência deve oferecer não modelos verdadeiros, mas sim modelos empiricamente adequados (isto é, que capturem de modo apropriado aspectos da realidade observável, esta a que te- mos acesso direto com nossos sentidos, sem intermedia- ção de aparelhos como microscópios, por exemplo) e (ii) que as entidades inobserváveis não necessariamente exis- tem, ainda que haja termos na linguagem cientíica que se reiram a elas. Neste artigo, argumentamos que a teoria das hie- rarquias tem uma natureza anti-realista, que pode ser apoiada no empirismo construtivo de Bas van Fraassen,