home . sobre . editores . números . submissões Expressão musical em condições extremas: Der Kaiser von Atlantis, de Viktor Ullmann Carlos de Lemos Almada * Resumo: O presente artigo examina uma das obras musicais menos conhecidas e mais singulares da história, a ópera Der Kaiser von Atlantis, composta pelo judeu austríaco Viktor Ullmann, em 1943 no gueto de Teresinstadt, um ano antes de sua execução pelos nazistas no campo de Auschwitz. Fruto das próprias terríveis condições vividas e presenciadas pelo compositor na época, essa ópera apresenta profundos traços de um expressionismo tardio, porém visceral, que se observa nos mais diversos aspectos: emprego de poliestilismo, criação de ambientes harmônicos distorcidos e grotescos, uso de sátiras e a presença maciça de símbolos, citações e referências musicais. Palavras-chave: Der Kaiser von Atlantis; Viktor Ullmamm; expressionismo. Introdução Este artigo pretende apresentar e comentar um dos mais singulares e trágicos episódios da história da música moderna: a composição da ópera O Imperador de Atlântida [Der Kaiser von Atlantis], por Viktor Ullmann. Tornam-se especialmente notável neste caso não só as condições de extrema dramaticidade em que essa obra foi escrita, mas também suas características musicais intrínsecas, que revelam um expressionismo de intensidade e natureza sem precedentes, potencializado ao máximo justamente pela enorme pressão do contexto no qual foi gerada. Viktor Ullmann Viktor Ullmann nasceu em 1898 na cidade de Tensche – hoje Cieszyn, parte da Polônia –, na fronteira desse país com a então Tchecoslováquia, cidade que na época pertencia ao território do Império Austro-Húngaro. Embora membro de uma família judia, foi batizado como católico, condição que abandonaria mais tarde (aos 21 anos), retornando à fé familiar ancestral. Em 1909 os Ullmann se mudaram para Viena, cidade na qual Viktor recebeu uma instrução sólida. Embora não tenha tido uma formação musical acadêmica, estudou com vários professores de renome, entre eles, Joseph Polnauer (harmonia) e Edward Steuermann (piano), ambos pertencentes ao círculo de músicos que gravitavam ao redor da figura de Arnold Schoenberg (tendo sido previamente seus alunos), de quem, aliás, Ullmann torna-se-ia também discípulo entre 1919 e 1920, após servir como oficial no exército austríaco durante a I Guerra Mundial [1] . Além da música, Ullmann se interessou bastante nessa época pelas idéias de Rudolph Steiner, fundador da doutrina da Antroposofia, que representaria uma considerável influência em sua estética composicional. Casou-se em 1919 com uma colega, aluna de Schoenberg, Martha Koref e, quase imediatamente após isso, o casal mudou-se para Praga, onde Viktor trabalhou sob o comando de Alexander von Zemlinsky [2] como regente auxiliar e, eventualmente como substituto, no Neues Deutsches Theater [Novo Teatro Alemão]. Tendo sido membro-fundador da Verein für musikalische Privataufführung [Associação dos Concertos Privados] de Viena, concebida por Schoenberg em 1918, ajudou a estabelecer em Praga uma associação similar, promovendo concertos preferencialmente de composições recentes, incluindo suas próprias. Entre 1927 e 1928 atuou como Kapellmeister no teatro da pequena cidade de Aussig (Alemanha), empenhando-se em encenar óperas de compositores modernos (Smetana, Krenek, Strauss etc.). Retornou a Praga em 1929, entremeando sua estada com longos períodos em Viena e Zurique. Após o divórcio com Martha, casou-se com Anna Winternitz em 1931, com quem teve três filhos. Restabeleceu-se em Praga em 1933, no mesmo ano em que Adolph Hitler tomava o poder na Alemanha, num período de sérias dificuldades financeiras, o que o fez atuar nos mais diversos campos musicais: como radialista, professor particular, orquestrador, crítico em jornais, tendo também escrito livros e diversos artigos em periódicos especializados. Em 1935 inscreveu-se como aluno de composição de Alois Hába no Conservatório de Praga, com quem estudou durante dois anos. A partir das afinidades musicais e também antroposóficas, tornaram-se grandes amigos. Como um judeu, as situações profissional e pessoal de Ullmann tornaram-se dificílimas com a anexação da Tchecoslováquia pela Alemanha, após a assim conhecida Crise dos Sudetos, em 1938. Os Ullmann decidem enviar, então, por trem seus dois filhos mais jovens para a Suécia, o que se dá em 1939, e no ano seguinte divorciam-se (logo após nasceria o quarto filho do casal). Viktor conhece, então, sua terceira esposa, Elisabeth. Após algumas tentativas frustradas de emigração, Ullmann, Elisabeth, suas duas ex- mulheres, Martha e Anna e seus dois filhos com esta última são presos em 1942 pela SS nazista e deportados para o gueto de Teresinstadt (ou Terezín, em tcheco), próximo a Praga. Martha foi no mesmo ano enviada ao campo de concentração de Treblinka, onde morreu na câmara de gás. Os demais Ullmann, incluindo os dois filhos pequenos, foram executados da mesma forma no campo de Auschwitz, em 18 de outubro de 1944, dois dias após a dissolução do gueto de Terezín pelos nazistas. Viktor Ullmann foi reconhecidamente entre seus pares um talentoso e prolífico compositor, a despeito de sua curta vida. Escreveu em grande quantidade (53 números de opus, além de diversas peças não numeradas): sonatas para piano, quartetos de cordas e música de câmara com variadas formações instrumentais, muitos ciclos de canções, peças para coro, além de obras orquestrais, como uma fantasia sinfônica, um concerto para piano e um concerto para orquestra, e uma peça em especial que lhe rendeu um relativo prestígio, Variações e Dupla Fuga sobre um Tema de Schoenberg, op.5 (escrita em 1925). Compôs ainda várias óperas, entre as quais se encontra Der Kaiser von Atlantis [O Imperador de Revista eletrônica de musicologia Volume XIV - Setembro de 2010 Página 1 de 6 Revista eletrônica de musicologia 07/04/2015 mhtml:file://C:\Users\win 7\Desktop\REV ELETR MUSICOLOGIA_Ulmann.mht