28 AVANCA | CINEMA 2014 A Invenção Pós-Abissal no percurso cinematográico de Pedro Costa Ana Cristina Pereira Universidade do Minho, Portugal Abstract Departing from the image of abyssal thinking, Boaventura Sousa Santos draws modern thought as supported by visible and invisible distinctions that divide reality in two ontologically diverse universes: “this side of the line” - northern imperial, colonial and neocolonial, and “the other side of the line,” - colonized south, silenced and oppressed. To overcome the abyssal form of thought we must, irst, recognize its persistence in the contemporary world, so that later we can think and act in pursuit of a post-abyssal thinking: a way of thinking with genesis in the “other side of the line” (Santos, 2010, 23-44). Cinema, no matter if as a cultural industry, or as an artistic product, is imbibed with the thought of the time in which it is produced. This relection regards the work of Pedro Costa, displacing the concepts of abyssal / post-abyssal thinking of scientiic production to artistic production and applying them to the work of the ilm director. Following Pedro Costa’s conversations with critics, other directors, newspapers and cinema magazines, between 1995 and 2014, we can understand in the author’s speech, the effect of the community experience, as an experience that builds community, more than as an experience that departs from a community: the time of understanding the communication and beavering codes, the growth of intimacy between the director and the actors, and inally the entire process that results in a cinema experience that feels like an invitation to belong, to became a part of this community that is being built. Keywords: Pedro Costa, Cape Verde, Colossal Youth, Abyssal Thinking, Ecology of Knowledge. É tudo invenção nossa É tudo Invenção Nossa de 1984 é a primeira obra de Pedro Costa. Uma curta-metragem que compreende já no seu título uma espécie de aviso daquilo que viria a ser o percurso do criador. É sim, tudo invenção nossa. De Pedro Costa que constrói icções atravessadas pelo real, e que icciona a realidade para que esta se aproxime mais da alternativa que quer propor. Invenção de Pedro Costa, ainda, que ao aproximar- se e ao aproximar o cinema da comunidade cabo- verdiana das Fontainhas deu origem a um processo de construção de uma nova comunidade, através de uma copresença fundadora e radical. Invenção também, das pessoas do Bairro das Fontainhas que, queremos acreditar, se deixam contaminar pelo cinema, e dele participam, reconstruindo assim a sua identidade. Mas também de quem vê os ilmes, de quem relete sobre eles, de quem torna possível a continuidade dessa utopia de comunidade a vir, que se alarga numa sala de cinema. É uma invenção sim, e é nossa, no sentido em que dela participamos e somos por ela transformados. Remetendo para Jean-Luc Nancy (1999, 78), podemos dizer que a experiência de comunidade não é uma experiência que fazemos é uma experiência que nos faz ser. Porque, a comunidade não é um projeto funcional nem produtivo ou operativo, nem sequer é um projeto (Nancy 1999, 42), e é por isso que ela não deriva do domínio da obra, nem é uma obra, nesse caso ela seria objetiva, puramente física, repetível e (ainda que menos perecível) estéril, e quer os produtos quer as operações decorrentes deste tipo de posicionamento face ao comum “por grandiosos que se queiram e ainda que às vezes o consigam ser, não têm nunca maior existência comunitária que os bustos em gesso” (Nancy 1999, 78). Pensa-se assim a comunidade como um espaço de partilha de pensamento, de olhares, de vozes, numa palavra: de sentimentos. A comunidade como resultado de um processo comunicativo e não como algo que o precede. E a comunicação, ainda na senda de Nancy (2009, 79), como ociosidade da obra enquanto projeto social, económico, político, técnico, institucional. O resultado não é previamente conhecido, não está garantido de antemão e pode perfeitamente fracassar. Além disso, a comunidade não é um resultado que se ixa no tempo, pelo contrário, é um devir contínuo com dinâmicas e compromissos que necessitam reinventar-se permanentemente (Gavilanes 2009). A invenção da comunidade perpetua-se no tempo e partilha-se com todos os elementos que dela fazem parte. E é por estes motivos que a comunidade parte de um “nós” e não de um “eu”. E é também por este motivo que a digo pós abissal. Boaventura de Sousa Santos (2010, 23) desenha o pensamento moderno como um sistema apoiado em distinções visíveis e invisíveis que dividem a realidade, em dois universos ontologicamente diversos: “o lado de cá da linha”- o norte imperial, colonial e neocolonial e “o lado de lá da linha” - o sul colonizado, silenciado e oprimido. O cinema, que é uma invenção da cultura ocidental e só possível graças ao desenvolvimento técnico, tecnológico e económico que se atingiu no “lado de cá da linha” sobretudo durante o século XX, não deixa de estar sujeito ao pensamento da época e do lugar em que é produzido e por conseguinte de o reletir. De fácil acesso, fácil reprodução, e menos efémera que as artes performativas em geral, a película de cinema atravessa continentes e gerações, atualizando no tempo conceitos, preconceitos e hipóteses, que as novas gerações vão adotando, muitas vezes, de forma inconsciente. Cada ilme transmite e “congela” no seu corpo determinadas representações identitárias, e portanto relete, querendo ou não, a forma como se pensa aqueles que estão “deste lado da linha” e também “os outros”, os que estão “do lado de lá da linha”. Numa palavra, podemos compreender como se relete nos ilmes o