1 AS HISTÓRIAS DA LITERATURA BRASILEIRA E O PERÍODO PÓS-1970 1 Pedro Mandagará (Doutorando CNPq/PUCRS) As histórias da literatura brasileira geralmente omitem dados sobre o período posterior a 1970. A razão principal desse silêncio é o fato de que as histórias foram publicadas antes dessa época. A literatura no Brasil, obra coletiva dirigida por Afrânio Coutinho, teve sua primeira edição em 1955; a História concisa da literatura brasileira, de Alfredo Bosi, é publicada em 1970. Depois do livro de Bosi é somente em 1997 que surge outro esforço historiográfico em moldes tradicionais: a História da literatura brasileira, da autora italiana Luciana Stegagno-Picchio, refundida a partir de um livro escrito para uma série italiana de “literaturas mundiais”. Alguns capítulos da edição mais recente de A literatura no Brasil, revisada e aumentada, tratam do período pós-1970. O primeiro deles, “O pós-modernismo no Brasil”, de Eduardo de Faria Coutinho, encontra diversas tendências na prosa das décadas de 1970 e 1980: a ficção-reportagem, o memorialismo, o fantástico, a narrativa intimista e, por último, “a narrativa fragmentada, de incorporação da mídia e caráter predominantemente especular e auto-indagador” (Coutinho, E., 1999: 239). Dentro dessa produção, a maior força estaria com o conto e a crônica. Tratando da poesia, Coutinho delimita grupos construídos à maneira das vanguardas: a arte-postal ou arte-correio, a poesia marginal, o poema-processo e o tropicalismo. Tanto na poesia como na prosa, ele enfatiza a continuidade do modernismo nessa produção, ao mesmo tempo em que problematiza sua inserção no quadro pós-moderno, tal como entendido nos Estados Unidos e na Europa. O segundo capítulo que trata da produção dos anos 1970 é “A nova literatura brasileira”, de Assis Brasil. Segundo ele, a nova literatura brasileira começa no ano de 1956, com o surgimento da poesia concreta, a estréia de Samuel Rawet como contista e o lançamento dos romances Doramundo, de Geraldo Ferraz, e Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. Após tratar desses autores e de outros, o autor abre a subseção “O moderno e o novo”, redigida em 1985, bem depois da parte inicial do texto. Tratando da poesia, ele enfatiza o rompimento com “o celebralismo das vanguardas” (Brasil, 1999a: 265), mencionando a publicação das obras completas dos vanguardistas das décadas anteriores, a existência de uma linhagem imagista, que 1 Este trabalho é uma versão revista de parte da minha dissertação de mestrado, intitulada Em 1975: três romances brasileiros, apresentada na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul em janeiro de 2008, sob orientação da Profª. Dr. Maria Eunice Moreira, e financiada por meio de bolsa da CAPES.