A Leitura em uma Perspectiva Progressista e o Ensino de Química 53 Vol. 37, N° 1, p. 53-62, FEVEREIRO 2015 Quím. nova esc. – São Paulo-SP, BR. ENSINO DE QUÍMICA EM FOCO Recebido em 07/03/2014, aceito em 21/05/2014 Renata Isabelle Guaita e Fábio Peres Gonçalves Este trabalho analisa uma estratégia de leitura de caráter progressista utilizada como instrumento de medida e promoção da aprendizagem no ensino de química. Foram conduzidas aulas de química em uma turma noturna com 25 educandos do 2º ano do ensino médio. As informações qualitativas obtidas a partir da produção escrita dos alunos foram submetidas aos procedimentos da análise textual discursiva. A estratégia de leitura favoreceu a apreensão de conhecimentos iniciais discentes a serem discutidos, bem como das interpretações dos educandos acerca dos textos, também problematizadas. Refletiu-se sobre a aprendiza- gem do ato de ler, a cultura do silêncio presente em sala de aula e a busca pela pedagogia da pergunta em detrimento à pedagogia das respostas. linguagem, leitura, ensino de química A Leitura em uma Perspectiva Progressista e o Ensino de Química* É preciso fazer o possível hoje, para que possamos fazer amanhã o que é impossível fazer hoje. Paulo Freire 1 R elatórios nacionais e internacionais, como os do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB) (Brasil, 2007) e o Programme for International Student Assessment (PISA) (OCDE, 2010), lançam um alerta quanto à formação leitora dos estudantes brasileiros. Em 2010, o Brasil apareceu no relatório PISA ocupando a 53ª posição no ranking de desempenho em leitura num total de 65 países (OCDE, 2010). É por meio de indicadores ligados à leitura, à matemática e às ciências que estudantes de ensino fundamental e médio dos países participantes do PISA têm seu desempenho avaliado. A mé- dia alcançada pelo país no que diz respeito ao indicador de leitura, 412, está abaixo da recomendada pela Organization for Economic Co-operation and Development (OCDE)², que indica 493 (OCDE, 2010). Aliado aos relatórios citados, estudos descritos na literatura apontam problemas associados à leitura de es- tudantes de ensino médio, tais como a pouca valorização das atividades de leitura, a desmotivação frente ao ato de ler e a escassa compreensão de textos diversos, sobretudo científicos (Teixeira Júnior; Silva, 2007). Com base nas di- ficuldades discentes, percebe-se a importância do educador na promoção de ações que favoreçam uma transformação do cenário exposto. São muitas as possibilidades de exploração da leitura – seja na educação básica ou na educação superior –, visando a focos diferentes no aprendizado como a exploração e discussão de textos utilizando-se do método jigsaw (Massi; Cerutti; Queiroz, 2013); a elaboração de perguntas a partir da leitura de um texto (Ferreira; Queiroz, 2012; Quadros; Silva; Silva, 2011; Paula; Lima, 2010); perguntas com respostas (Francisco Júnior, 2011); a solicitação aos estudantes para que destaquem e comentem trechos de um texto (Francisco Júnior, 2010); e o uso de produções literárias de nomes no- tórios da ciência como propõe Zanetic (2006). É preciso ressaltar também a diversidade de referenciais teórico-metodológicos que orientam essas proposições e análises em torno da leitura no ensino. Em sintonia com tal diversidade, foi desenvolvida uma investigação com a finalidade de analisar uma estratégia de leitura de caráter progressista utilizada como instrumento de medida e promo- ção da aprendizagem no ensino de química. Advoga-se em favor da promoção de uma consciência crítica dos sujeitos em que a leitura da palavra se articule com a leitura de mundo, conforme expõe Freire (2006a). http://dx.doi.org/10.5935/0104-8899.20150008