1 FUTURO PERFEITO E CONDICIONAL COMPOSTO: MEDIATIVO NO DISCURSO JORNALÍSTICO EM PORTUGUÊS EUROPEU E EM PORTUGUÊS BRASILEIRO Isabel Margarida Duarte FLUP / CLUP 0. Introdução O tempo verbal de que me ocuparei, o futuro composto do modo indicativo, é geralmente designado, na tradição gramatical portuguesa, como futuro perfeito. Cunha & Cintra (1984=2000: 460) chamam-lhe “futuro do presente composto” e atribuem-lhe três valores: a. a indicação de que uma acção futura (A) terá já acontecido (e daí a designação de futuro perfeito) quando outra acção, também futura (B) tiver lugar. Vejamos um exemplo: (1) Quando eu chegar a casa (B), já tu terás saído para a escola (A) 1 . futuro perfeito b. a indicação do carácter certo de uma acção futura, sendo o exemplo de Joaquim Paço de Arcos fornecido por Cunha & Cintra, a meu ver, pouco feliz, porque a acção certa é a que o futuro simples do indicativo indica (“perdurará”) e o futuro perfeito equivale quase ao pretérito perfeito (=foi): (2) “Só o direito perdurará e não terá sido vão o esforço da minha vida inteira.” (p. 460). c. a expressão de incerteza, probabilidade, dúvida sobre factos passados, como no exemplo de Manuel Bandeira (3) “Não sei se me engano, mas creio que nem uma só vez ele terá falhado.” (p.460) O tempo verbal em estudo, sobretudo em ocorrências idênticas às do exemplo (3), tem um evidente valor modal reforçado, aliás, no referido exemplo, pelo verbo epistémico também ele modalizador da asserção (“creio”). Se fizermos uma pesquisa no corpusdoportugues (Davies & Ferreira) 2 , verificaremos que, no que concerne ao Português Europeu (PE), este tempo verbal é sobretudo utilizado nos séculos XX e XXI, sendo as ocorrências anteriores cobertas pelas descrições de Cunha & Cintra já referidas. Gráfico 1: o futuro perfeito desde o século XIV 1 Num registo oral e não vigiado, usaríamos o pretérito perfeito em vez do futuro perfeito: “Já tu saíste para a escola”. 2 Para este trabalho, foram usados dois corpus. Todos os gráficos foram elaborados a partir do corpusdoportugues (Davies & Ferreira) e os exemplos retirados do CETEMPúblico (e do CETENFolha, consultável no sítio do CETEMPúblico / Linguateca: http://www.linguateca.pt/cetempublico/).