XI Congresso Internacional da ABRALIC Tessituras, Interações, Convergências 13 a 17 de julho de 2008 USP – São Paulo, Brasil DMITRI PÍSARIEV E JEAN-JACQUES ROUSSEAU: Notas sobre as querelas estéticas francesa (século XVIII) e russa (século XIX) e seus possíveis paralelos Prof. Dr. Bruno Barreto Gomide 1 (USP/FFLCH) Mestranda Priscila Nascimento Marques 2 (USP/FFLCH) Resumo: O objetivo do presente trabalho é abordar as discussões que envolveram a temática das artes no Século das Luzes, na França e no século XIX, na Rússia. Para cada contexto elegeu-se um protagonista – Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e Dmitri Ivanovitch Písariev (1840-1868), respectivamente – cujas idéias serão inicialmente esboçadas e situadas no debate. No caso de Rousseau o foco consistirá no exame do texto de 1758, Carta a D’Alembert.Písariev foi um crítico radical de forte impacto no curto período de sua vida. Dialogava intensamente com outros críticos e artistas, sempre marcando posições controversas que deram novo ânimo à querela estética.Por fim, buscar-se-á tecer alguns paralelos entre as idéias previamente desenvolvidas, de modo a apresentar possíveis convergências, sem, entretanto, objetivar fundir paradigmas e contextos que são sabidamente distintos. Palavras-chave: Crítica Literária Russa, Estética, D. I. Písariev, J. J. Rousseau. 1. Rousseau e a Carta a D’Alembert Foi no campo da discussão acerca da função pedagógica dos espetáculos que Jean-Jacques Rousseau escreveu sua Carta à D’Alembert em 1758. Diante do problema central dos espetáculos (seu efeito sobre o espectador e a possibilidade de atuar no aprimoramento moral do homem) Rousseau apresenta dois pontos: o teatro é incapaz de ensinar o homem a ser virtuoso; pode, contudo, reforçar seus vícios, ao espelhá-los: “em conseqüência de sua própria inutilidade, o teatro, que nada pode para corrigir os costumes, pode muito para corrompê-los” (Rousseau: 1993: 73). Conforme observa Salinas Fortes (1997: 145), “estamos aqui diante de um repudio específico de uma crítica específica a um gênero específico de teatro” 1 . Para Rousseau os espetáculos são determinados pelo prazer que proporcionam (“quanto à espécie dos espetáculos, ela é necessariamente determinada pelo prazer que eles proporcionam” (Rousseau, 1993: 41)), de forma que, se os espetáculos são “um quadro das paixões humanas, cujo original está em nossos corações” (Rousseau, 1993: 41), eles serão tão bons quanto o for seu público 2 . A seguir Rousseau delimita os efeitos gerais do teatro: 1) reforçar o caráter nacional; 2) acentuar as inclinações naturais e 3) dar nova energia a todas as paixões. Daí decorre a descrença de Rousseau quanto a uma possível função civilizatória do teatro, pois para ele sua baliza é o homem e não o contrário. Dada essa limitação, Rousseau opõe à noção de perfectibilidade contínua do teatro (defendida por Diderot) uma noção de perfectibilidade máxima do mesmo, conforme observa Bento Prado Jr. (1975: 8). 1 “Perguntar se os espetáculos são bons ou maus em si mesmos é fazer uma pergunta vaga demais; é examinar uma relação antes de ter determinados os termos. Os espetáculos são feitos para o povo, e só por seus efeitos sobre ele podemos determinar suas qualidades absolutas.” (Rousseau, 1993: 40). 2 “O novo, no texto de Rousseau, é o uso que se dá a essa proposição, como preparação de uma genealogia dos valores: ela torna possível uma hierarquização das diferentes formas de espetáculo mediante um diagnóstico da qualidade do público. O espetáculo vale o que vale seu público, pra o bem como para o mal, e a vigilância o moralista só se justifica num caso excepcional – mas é justamente o caso do texto de D’Alembert – ,quando se quer impor a um público ‘saudável’ um espetáculo criado para um público doente” (Prado Jr., 1975: 29).