Actas do IV Congresso de História da Arte Portugesa em Homenagem a José-Augusto França 454 23 NOVEMBRO SESSÃO TEMÁTICA 11 VAI E VEM: QUESTÕES DE CULTURA VISUAL Panofsky e a tradição da Bildwissenschaft, para lá do cerco ao método iconológico Maria Coutinho Instituto de Estudos Medievais e Instituto de História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa Apresento um breve comentário a posições e escritos de Erwin Panofsky, sobre fotografia e cinema, que o alinham com a tradição da Bildwissenschaft alemã, isto é, valorizando aspectos da visualidade artística e suas potencialidades não só práticas, como teóricas e críticas; não sem antes discutir algumas das limitações imputadas à metodologia dos três níveis de significado. Ambas as partes confluem para o objectivo comum de apontar linhas de reflexão que permitam suplantar, mesmo que timidamente, o fechamento na proposta de iconografia e iconologia, no caso, a visão de um autor excessivamente focado na legibilidade das obras de arte e, com isso, menos disponível para a transversalidade das questões de cultura visual e suas potencialidades reflexivas. A História da Arte como Disciplina Humanística, introdução de O Significado nas Artes Visuais, de 1955 1 , representa o desfecho de uma proposta metodológica enunciada na introdução aos Estudos de Iconologia, de 1939 2 , que, por sua vez, sintetiza (e desenvolve) um artigo publicado ainda na Alemanha, em 1932, na revista Logos, intitulado Acerca do problema de descrever e interpretar obras das artes visuais 3 . Comentarei brevemente este artigo, pensando de que modo lida com as singularidades materiais dos suportes ou encara a visualidade artística submetendo, ou não, o visível a formas de legibilidade, para debater algumas das principais críticas ao seu sistema interpretativo. Que críticas? 4 Uma das principais fragilidades apontadas é o facto de a abordagem panofskiana se limitar, não raras vezes, a uma análise iconográfica centrada na tradição pictórica a que uma obra de arte está ligada, convertendo-se num mero exercício de decifração. É relativamente a tais casos que Didi-Huberman assinala que a imagem corre o risco de subsumir na classificação das suas partes, perdendo expressão como um todo, assim se diluindo o que é da ordem do não-visível 5 . Simultaneamente, esta prática assume com frequência que as imagens foram elaboradas para serem decifradas a partir de 1 Panofsky, Erwin. Meaning in Visual Arts. New York: Doubleday, 1955. 2 Panofsky, Erwin. Studies in Iconology. London: Oxford University Press, 1939. 3 PaŶofskLJ, EƌǁiŶ. )uŵ Pƌoďleŵ deƌ BesĐhƌeiďuŶg uŶd IŶhaltsdeutuŶg ǀoŶ WeƌkeŶ deƌ ďildeŶdeŶ KuŶst. Logos XXI (1932): 103–11ϵ. Tƌadução: Jaś ElsŶeƌ e KathaƌiŶa LoƌeŶz soď o título OŶ the Pƌoďleŵ of DesĐƌiďiŶg aŶd IŶteƌpƌetiŶg Woƌks of the Visual Aƌts. Critical Inquiry 38 (Spring 2012): 46782. 4 O espaço de que disponho obriga a conter as referências, deste modo apresentadas sintética e transversalmente; reconheço, por isso, a incompletude a que as voto e a injustiça que cometo ao retirá-las do seu contexto de enunciação (sempre mencionado). Tais apreciações são especialmente válidas para as referências de Keith Moxey, que critica, sobretudo, a prática historiográfica decorrente de interpretações, empobrecidas, dos textos de Panofsky. São-no ainda para as observações de G. Didi-Huberman que, em Devant l’image [consultado na tradução inglesa: Confronting Images], leva a cabo uma profunda reflexão, cujo alcance sai diminuído pelas breves referências seleccionadas. 5 Didi-Huberman, Georges. Confronting Images: Questioning the ends of a certain History of Art . Trad. John Goodman. Pennsylvania: Pennsylvania State University Press, 2005.