444 Capítulo 20 Estado, a democracia e a educação: ou o buraco é muito mais em baixo 1 Ralph Ings Bannell Esperar da sociedade mercantilizada uma sanção ativa – ou mesmo mera tolerância – de um mandato que estimule as instituições de educação formal a abraçar plenamente a grande tarefa histórica do nosso tempo, ou seja, a tarefa de romper com a lógica do capital no interesse da sobrevivência humana, seria um milagre monumental (Mészáros) A transcendência positiva da alienação é, em última instância, uma tarefa educacional (Mészáros) I. Introdução Tanto a pesquisa apresentada na primeira parte desse livro, bem como os fenômenos analisados nos outros artigos nessa segunda parte, partem do pressuposto de que a escola pública deveria ser um lugar de democratização e inclusão social dos meios populares. No entanto, todas as análises mostram as dificuldades enfrentadas pelas escolas – em vários países no mundo, na Europa e na América do Sul – em promover esses objetivos. Não acho mera coincidência que os problemas detectados sejam parecidos em contextos tão diferentes, nem que as escolares públicas desses países não estejam conseguindo superá- los. Acho, pelo contrário, que isso mostra que o “buraco é muito mais embaixo”, como se diz no Brasil. Ironicamente, a análise apresentada nesse artigo foi elaborada ao longo dos quatro anos do projeto de pesquisa apresentado na primeira parte deste livro. Aquele projeto teve como objetivo principal compreender as percepções dos pais dos alunos das escolas cujos ingressos são prioritariamente da favela de Rocinha, no Rio de Janeiro, acerca da escola de seus filhos. Além disso, como está explicado nos capítulos do livro, foi realizada uma série de investigações empíricas sobre o cotidiano das escolas, bem como sobre instituições da sociedade civil, tais como o Conselho Tutelar, na promoção do direito dos alunos à educação básica. O que chamou a minha atenção ao longo desses anos foi a falta de respostas concretas da Secretaria Municipal de Educação diante dos resultados da pesquisa apresentados a ela em 1 Agradeço o Institute of Education, Universidade de Londres, por me conceder um “visiting fellowship”, no mês de janeiro de 2014, durante o qual escrevi esse artigo.