64 ESCOLA GRANDES PENSADORES 65 GRANDES PENSADORES ESCOLA A educação foi uma das preocupações centrais de Skinner, à qual ele se dedicou com seus estudos sobre a aprendizagem e a linguagem. No livro Tecnologia do Ensino, de 1968, o cientista desenvolveu o que chamou de máquinas de aprendizagem, que nada mais eram do que a organização de material didático de maneira que o aluno pudesse utilizar sozinho, recebendo estímulos à medida que avançava no conhecimento. Grande parte dos estímulos se baseava na satisfação de dar respostas corretas aos exercícios propostos. A idéia nunca chegou a ser aplicada de modo amplo e sistemático, mas influenciou procedimentos da educação norte-americana. Skinner considerava o sistema escolar predominante um fracasso por se basear na presença obrigatória, sob pena de punição. Ele defendia que se dessem aos alunos “razões positivas” para estudar, como prêmios aos que se destacassem. “Para Skinner, o ensino pode e deve ser planejado de forma a levar o aluno a emitir comportamentos progressivamente próximos do objetivo final esperado, sem que para isso precise cometer erros”, diz Maria de Lourdes Zanotto. “A máquina de aprendizado não pretende substituir o professor. A idéia é que ela se ocupe das questões factuais e deixe ao professor a tarefa fundamental de ensinar o aluno a pensar.” A diferença entre o reflexo condi- cionado e o condicionamento ope- rante é que o primeiro é uma respos- ta a um estímulo puramente externo; e o segundo, o hábito gerado por uma ação do indivíduo. No comportamen- to respondente (de Pavlov), a um es- tímulo segue-se uma resposta. No comportamento operante (de Skin- ner), o ambiente é modificado e pro- duz conseqüências que agem de novo sobre ele, alterando a probabilidade de ocorrência futura semelhante. O condicionamento operante é um mecanismo de aprendizagem de no- vo comportamento – um processo que Skinner chamou de modelagem. O instrumento fundamental de mo- delagem é o reforço – a conseqüência de uma ação quando ela é percebida por aquele que a pratica. Para o be- haviorismo em geral, o reforço pode ser positivo (uma recompensa) ou negativo (ação que evita uma conse- qüência indesejada). Skinner consi- derava reforço apenas as contingên- cias de estímulo. “No condiciona- mento operante, um mecanismo é fortalecido no sentido de tornar uma resposta mais provável, ou melhor, mais freqüente”, escreveu o cientista. Sem livre-arbítrio Segundo Skinner, a ciência psicológi- ca – e também o senso comum – cos- tumava, antes do aparecimento do behaviorismo, apelar para explica- ções baseadas nos estados subjetivos por causa da dificuldade de verificar as relações de condicionamento ope- rante – ou seja, todas as circunstân- cias que produzem e mantêm a maio- ria dos comportamentos dos seres humanos. Isso porque elas formam cadeias muito complexas, que desa- com base em uma ciência do compor- tamento humano, como possibilidade de evolução da cultura”, diz Maria de Lourdes Bara Zanotto, professora de psicologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Condicionamento operante O conceito-chave do pensamento de Skinner é o de condicionamento operante, que ele acrescentou à no- ção de reflexo condicionado, formu- lada pelo cientista russo Ivan Pavlov. Os dois conceitos estão essencial- mente ligados à fisiologia do organis- mo, seja animal ou humano. O refle- xo condicionado é uma reação a um estímulo casual. O condicionamento operante é um mecanismo que pre- mia uma determinada resposta de um indivíduo até ele ficar condicio- nado a associar a necessidade à ação. É o caso do rato faminto que, numa experiência, percebe que o acionar de uma alavanca levará ao recebi- mento de comida. Ele tenderá a re- petir o movimento cada vez que qui- ser saciar sua fome. N enhum pensador ou cientista do século 20 levou tão longe a crença na possibilidade de controlar e moldar o comportamento humano como o norte-americano Burrhus Fre- deric Skinner (1904-1990). Sua obra é a expressão mais célebre do behavio- rismo, corrente que dominou o pensa- mento e a prática da psicologia, em es- colas e consultórios, até os anos 1950. O behaviorismo restringe seu estu- do ao comportamento ( behavior, em inglês), tomado como um conjunto de reações dos organismos aos estímulos externos. Seu princípio é que só é possível teorizar e agir sobre o que é cientificamente observável. Com isso, ficam descartados conceitos e catego- rias centrais para outras correntes teó- ricas, como consciência, vontade, in- teligência, emoção e memória – os es- tados mentais ou subjetivos. Os adeptos do behaviorismo costu- mam se interessar pelo processo de aprendizado como um agente de mu- dança do comportamento. “Skinner revela em várias passagens a confian- ça no planejamento da educação, B.F. SKINNER O CIENTISTA DO COMPORTAMENTO E DO APRENDIZADO fiam as tentativas de análise se elas não forem baseadas em métodos ri- gorosos de isolamento de variáveis. Nos usos que projetou para suas conclusões científicas – em especial na educação –, Skinner pregou a efi- ciência do reforço positivo, sendo, em princípio, contrário a punições e esquemas repressivos. Ele escreveu um romance, Walden II, que projeta uma sociedade considerada por ele ideal, em que um amplo planejamen- Burrhus Frederic Skinner nasceu em Susquehanna, no estado norte- americano da Pensilvânia, em 1904. Criado num ambiente de disciplina severa, foi um estudante rebelde, cujos interesses, na adolescência, eram a poesia e a filosofia. Formou-se em língua inglesa na Universidade de Nova York antes de redirecionar a carreira para a psicologia, que cursou em Harvard – onde tomou contato com o behaviorismo. Seguiram-se anos dedicados a experiências com ratos e pombos, paralelamente à produção de livros. O método desenvolvido para observar os animais de laboratório e suas reações aos estímulos levou-o a criar pequenos ambientes fechados que ficaram conhecidos como caixas de Skinner, depois adotadas para experimentos pela indústria farmacêutica. Quando sua filha nasceu, Skinner criou um berço climatizado, o que originou um boato de que a teria submetido a experiências semelhantes às que fazia em laboratório. Em 1948, aceitou o convite para ser professor em Harvard, onde ficou até o fim da vida. Morreu em 1990, em ativa militância a favor do behaviorismo. BIOGRAFIA A educação é o estabelecimento de comportamentos que serão vantajosos para o indivíduo e para outros em algum tempo futuro CORBIS/STOCK PHOTOS REALISMO ‘‘ Para o psicólogo behaviorista norte- americano, a educação deve ser planejada passo a passo, de modo a obter os resultados desejados na “modelagem” do aluno ’’ MÁQUINAS PARA FAZER O ALUNO ESTUDAR