1108 ESTUDOS LINGUÍSTICOS, São Paulo, 39 (1): p. 1108-1123, mai-ago 2010 Do tempo ao espaço e da escrita à imagem: a espacialização da linguagem na poesia visual (From time to space and from writing to image: the spatialization of language in visual poetry) Sérgio Roberto Massagli Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) massaglis@hotmail.com Abstract: This work will focus on the shift that led to the most radical change in our means of representation – the replacement of the word by the image in the communicational processes, along with the predominance of simultaneity over linearity, of spatiality over the temporality, of exteriority over interiority. Keywords: Spatiality; simultaneity; representation. Resumo: Este trabalho focalizará a mudança que levou à transformação mais radical nos nossos modos de representação – a substituição da palavra pela imagem nos processos comunicacionais, juntamente com a predominância da simultaneidade sobre a linearidade, da espacialidade sobre a temporalidade, da exterioridade sobre a interioridade. Palavras-chave: espacialidade; simultaneidade; representação. 1. Considerações sobre a poesia visual através da espacialização da escrita A fim de esclarecimento, uso o termo poesia visual, em detrimento de uma série de outros que têm sido usados para denominar diferentes tendências da produção poética mais recente que seguiu o impulso de explorar espacialmente os limites da palavra enquanto elemento visual. Obviamente toda poesia é visual. Mas, devo reconhecer com Valdevino Soares de Oliveira, que afirma, em seu livro Poesia e Pintura: um diálogo em três dimensões, que “Quanto mais verbal for a poesia, mais temporal e vice-versa; quanto mais visual, mais espacial. A passagem do verbal para o visual é marcada pela transformação do tempo em espaço” (OLIVEIRA, 1999 p. 45). Essa passagem do verbal para o visual, no entendimento do autor, não é de data recente e o pressuposto dessa ligação se inicia na Antiguidade Greco-latina e atravessa toda a história da literatura para desaguar na poesia visual moderna. A esse respeito ele escreve: Em alguns momentos da historia literária, a identificação da poesia com a forma visual e pictórica se mostrou de modo bastante incisivo. É o caso, por exemplo, de boa vertente da poesia homérica, do Barroco e a arte do Renascimento. Na contemporaneidade o código poético é revigorado pelo visual das artes plásticas e pelos recursos imagéticos dos meios eletrônicos. É ainda a tela, o suporte da imagem: no Renascimento, a tela do pintor; hoje, a tela de vídeo. A poesia visual funde as duas e transporta para a página os processos criativos de uma e outra. Tempo e espaço se misturam para produzir o objeto estético. (OLIVEIRA, 1998, p. 12) Nessa obra, Oliveira problematiza a dicotomia das artes do tempo e das artes do espaço tratada já no século dezoito por G. E. Lessing no seu ensaio Laocoonte ou sobre as