E A FAMÍLIA, COMO VAI ? Reflexões sobre mudanças nos padrões de família e no papel da mulher 1 Cecilia M. B. Sardenberg 2 Em artigo veiculado recentemente na imprensa baiana, noticiou-se que Dom Lucas Mendes, Cardeal Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, ‘reagiu indignado’ com os altos índices de divórcios registrados na cidade em 1996, afirmando ser esta “a causa das desgraças que estão acontecendo no Brasil”. Informado de que cerca de metade dos sete mil casamentos realizados em Salvador naquele ano foram desfeitos, Dom Lucas Mendes, ‘com a fisionomia carregada de muita tristeza’, assim declarou: “Só a oração, a reflexão sobre a importância da união matrimonial que multiplica criaturas, dará ao homem o sentido de viver bem, em paz” (A Tarde 01/06/97). Menos extremados em suas declarações, mas igualmente preocupados com a ‘família brasileira’, sociólogos, psicólogos, comentaristas de jornais, da mídia televisiva e demais representantes da sociedade civil pronunciam-se alarmados com os crescentes índices de divórcios, com a multiplicação de famílias parciais chefiadas por mulheres, com a aparente licenciosidade dos jovens, a escalada dos números de adolescentes grávidas e outros fenômenos sociais que, de uma forma ou de outra, dizem respeito às relações familiares. Não é preciso dizer que, como de costume, também neste caso os ‘experts’ divergem quanto às causas e a melhor maneira de solucionar o problema: cada um faz seu diagnóstico e dá a sua receita. Todavia, é certo que cresce a passos largos o consenso de que um ‘processo de desagregação e degradação familiar’ assola o país. Não é, pois, ao acaso que, hoje em dia, político que se preza arroga-se o direito de falar em nome ou em defesa da família. Sem dúvida, ninguém há de negar que mudanças sensíveis venham ocorrendo nas atitudes e comportamentos familiares e, conseqüentemente, nos padrões de organização doméstico-familiar. Mas há fortes indícios de que ‘a família’ enquanto valor não perdeu a sua força. Muito ao contrário, repetidas enquetes e pesquisas de opinião continuam a apontar a família como uma das instituições de maior prestígio entre os brasileiros e como a depositária da sua confiança máxima. Além disso, a relevância da família, enquanto valor, também vem sendo confirmada por diferentes estudos de caso sobre moradores da periferia das grandes cidades: todos indicam que o ‘projeto familiar’ é o centro das preocupações desses trabalhadores e o grande motivador de seus esforços, de suas lutas (Durham 1988). E, a julgar pelo nepotismo que grassa nos diferentes escalões do governo e entre o empresariado nacional, não seria exagero afirmar que, a bem ou mal, também entre as classes dominantes o ‘projeto familiar’ parece assumir igual importância. O que nos leva a concluir que apesar das mudanças, dos conflitos e dos pronunciamentos sobre a ‘crise’, a família brasileira parece ir muito bem, obrigada! 1 O presente trabalho foi originalmente publicado em: Bahia: Análise & Dados, Salvador: SEI/ SEPLANTEC, Vol. 7, No. 2, setembro 1997, pp:5-15. 2 Professora Associada IV do Departamento de Antropologia e Pesquisadora do NEIM, da Universidade Federal da Bahia.