PPGH-UNICENTRO, PPGH-UEPG. Anais do I CONGRESSO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA – UNICENTRO-UEPG: “História e Cultura: Identidades e regiões”, de 14 a 17 de maio. Irati-PR: Programas de Pós-graduação em História da UNICENTRO e da UEPG, 2013. (Resumos e trabalhos completos). ISSN: 1807-3298. 1 NARRATIVAS MONSTRUOSAS: ANOMALIA E DEGENERESCÊNCIA NA LITERATURA E NA CRIMINOLOGIA DO SÉCULO XIX Clóvis Mendes Gruner (Departamento de História/UFPR) e-mail: clovisgruner@gmail.com Resumo. O tema da constituição de uma cultura e sensibilidade modernas tem merecido diferentes abordagens historiográficas. Este artigo se propõe acompanhar este processo de mudanças privilegiando uma história cultural do crime a partir da interseção entre dois tipos de narrativas: a literatura de ficção e a criminologia. A articulação destas diferentes fontes permite acompanhar as maneiras como figuras, nomes, imagens e lugares foram mapeados, identificados e organizados, contribuindo para a construção de um imaginário acerca do crime e do criminoso, bem como de um sentimento de insegurança que definiram parte da experiência da modernidade. O objetivo é mostrar que ambos os discursos, o literário e o científico, alimentaram-se mutuamente e foram, igualmente, influenciados pelas novas configurações sociais que emergem principalmente nos centros urbanos. Ao mesmo tempo, e a partir de tropos discursivos distintos, embora complementares, literatura e criminologia contribuíram de maneira decisiva para a instituição de novas percepções e imagens sobre o crime e, notadamente, sobre o criminoso. Palavras-chave: Narrativas, Literatura, Criminologia. Como viver sem o desconhecido diante de si? René Char Conto emblemático, considerado fundador do gênero policial e publicado originalmente em 1841, “Os crimes da rua Morgue”, de Edgar Allan Poe, conta a história de duas mulheres, mãe e filha, brutalmente assassinadas em circunstâncias consideradas extraordinárias (a porta e as janelas que davam para o exterior da casa estavam fechadas), e das investigações paralelas, conduzidas pela polícia e pelo detetive particular Auguste Dupin, até a elucidação do bárbaro crime pelo último: tratava-se, o assassino, não de um homem, mas de um símio, que fugira à vigilância de seu proprietário, um marinheiro de passagem por Paris, que pretendia negociá-lo na capital francesa antes de seguir viagem. 1 O conto já apresenta algumas características que se tornariam, depois, elementares de boa parte da ficção policial: a ambientação urbana; o conflito entre a polícia, inepta ainda que cientificamente equipada, e o detetive particular (private eyes, em inglês), observador astuto, atento aos detalhes mais insignificantes; o papel da 1 POE, Edgar Allan. Os crimes da rua Morgue. In.: Ficção completa, poesia & ensaios. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001.