31 E stamos enrascados! E o pior é que a maioria de nós sequer tem consciência disso. Ou quando tem consciência, não está ciente de todas as consequências desse fato. Uma explicação não alarmista para essa realidade remete à etimologia do adjetivo “enrascado”: o substantivo que lhe deu origem, “rasca” caiu em desuso há muito tempo, mas os dicionários ainda fornecem o seu signiicado: “rede”, no sentido mais literal possível, i.e., daqueles objetos que nos auxiliam na captura de, por exemplo, pescados. Portanto, um outro modo de dizer que não apenas os peixes e crustáceos que cap- turamos com a rasca, mas nós também estamos numa enrascada, seria airmar que estamos “enredados”. Estamos enrascados também num sentido menos literal mas muito concreto, pois parte considerável da humanidade hoje é usuária da rede mundial de computadores e, naqueles momentos em que não está efetivamente conectada, está sujeita ao bombar- deio das redes de rádio e TV ou à inluência de um sistema de relações muito assemelhado à trama de um tecido. Sim, estamos “à rasca”, como dizem os portugueses. Para conhecer melhor essa situação da qual nos tornamos agora cada vez mais cientes, seria interessante nos valermos de uma relexão ilosóica suicientemente elaborada para desvendar tanto os riscos quanto as promessas desse nosso enredamento. Não por acaso, Vilém Flusser, que veio a se tornar um dos principais pensadores dos novos media, usou muito frequentemente metáforas do campo semân- tico dos tecidos (malhas, redes, teias, véus, etc.) para construir suas posições ilosóicas. Constata-se, no entanto, que o ilósofo empregou esses termos em contextos diversos, de acordo com as diferentes fases do seu pensamento, desde a “ilosoia da língua” até a ilosoia da comunicação. Na verdade, os usos dessa metáfora têxtil traduzem o itinerário de Flusser rumo à sua ilosoia da comunicação, já que, dos dois períodos considerados aqui, o mais antigo enfatiza aspectos “gnosiológicos” – em certo sentido também “metafísicos” – da relação da humanidade com o mundo e o outro, que poderia ser chamado mais propriamente de “comunicológico”, caracteriza NAS MALHAS DA PóS-HISTóRIA roDrigo Duarte