AS MANIFESTAÇÕES DE JUNHO: Estratégia em rede para resistência civil 1 THE JUNE MANIFESTATIONS: Network Strategy for Civil Resistance João Guilherme Bastos dos Santos e Alessandra Aldé Resumo: As manifestações ocorridas no Rio de Janeiro ao longo dos meses de junho e julho de 2013 mostram paralelos notáveis com as dinâmicas registradas em muitos outros casos de desobediência civil e ação não violenta analisados pelo projeto Civil Resistance & Power Politics (Roberts e Ash, 2009). Entendemos que é possível avançar na análise deste caso através da associação entre o conceito de redes policêntricas (Gerlach, 2001) e a ideia de dramaturgia estratégica, conferindo centralidade à linguagem orientada para a exposição pública de posições nem sempre verbalizáveis e/ou racionalmente defensáveis, bem como à sua adaptação a um cenário complexo de meios e públicos, como é possível verificar em movimentos bem sucedidos de desobediência civil. Palavras-Chave: Mídia e desobediência civil. Internet e política. Estratégias de comunicação política. Redes policêntricas e mobilização civil A proporção das manifestações que ocorreram no Brasil e a velocidade com que mobilizaram respostas por parte da elite política, em contraste com a dificuldade em se encontrar uma liderança centralizada, causaram surpresa em boa parte dos analistas políticos. As estimativas variam entre um e três milhões de manifestantes nas ruas das cinco regiões do país no dia 20 de junho. Direta ou indiretamente, as manifestações pressionaram a esfera política em várias pautas polêmicas. O aumento das passagens de ônibus e metrô, motivo inicial dos protestos, foi revogado em dezenas de cidades pelo país por governos municipais e estaduais. No âmbito federal, antes do fim do mês, a Câmara dos deputados aprovou o projeto de lei que destina 75% dos royalties do petróleo para educação e os 25% restantes para saúde e transformou a corrupção em crime hediondo, o Ministério da Saúde anunciou a abertura de 35 mil vagas para a contratação de médicos no Sistema Único de Saúde até 2015, e a presidência da República propôs cinco pactos nacionais, envolvendo responsabilidade 1 Versões anteriores deste trabalho foram apresentadas no Colóquio sobre Democracia e Tecnologia, promovido pela UFMG em outubro de 2013, e no GT Comunicação e Política da Compós, em maio de 2014.