1 MARIPOSAS QUE TRABALHAM: uma etnografia da prostituição feminina na região central de Belo Horizonte Lúcio Alves de Barros * A prostituição é a única forma honesta de amor, aquela que não se alimenta de mentiras. Na prostituição, o porco que está pagando sempre encontra o que procura, pois ele limita o seu desejo às coisas possíveis. Com uma amante desinteressada que se oferece com paixão, o homem nunca encontra aquilo que procura, pois ele sempre está procurando outra coisa. (G. de la Fouchardière apud Adler, 1991: 200) A mulher pública foi marcada com ferro em brasa: proscrita e entregue a seus perseguidores; apenas ela, mas nunca o homem – seu parceiro com igual responsabilidade (Flexner apud Adler, 1991: 200) Introdução Inicio o presente texto destacando três argumentos: um, de ordem pessoal, refere-se ao encanto, curiosidade, respeito e resignação que tenho nutrido pelas prostitutas e pelo mundo em que vivem. Tenho dúvidas se a maioria dos homens não compartilham tais pensamentos comigo. É difícil a contenção do impulso sexual que elas produzem e não são poucos os homens que optam por sua repressão. Obviamente, isso não impede a produção - pelo contrário - até auxilia -, de imagens, fantasias, pensamentos e reflexões em relação às chamadas “garotas de programa”. O segundo argumento diz respeito à prostituição como uma relação de trabalho como outra qualquer. Na relação que tece com seus clientes ou “pacientes”, defendo que podemos identificar as mesmas circunstâncias que encontramos em uma relação de trabalho considerada "normal”. Como entendo a relação sexual das prostitutas como relação de trabalho – e aqui já demonstro meu terceiro argumento – defendo que ela seja regulamentada e que disponha de todos os direitos e deveres garantidos e impostos aos trabalhadores e empregadores do mercado de trabalho formal. O texto que se segue traça reflexões a respeito do fenômeno da prostituição. Para isso, visitei os hotéis do centro de Belo Horizonte. Poderia ter buscado apenas os livros e textos acadêmicos. Há muito a prostituição é enfoque de estudo de sociólogos, historiadores, antropólogos, assistentes sociais e psicólogos. Mas queria ver de perto o que muito ouvia de meus colegas. Em tais circunstâncias, decidi lançar mão do conteúdo e da forma de ver a realidade própria dos antropólogos. Creio que a observação participante me permitiu algumas reflexões no campo sociológico e, não tenho dúvida, valeu a experiência. * - é Licenciado e Bacharel em Ciências Sociais pela UFJF, Mestre em Sociologia e Doutor em Ciências Humanas: Sociologia e Política pela UFMG. É autor do livro “Fordismo: origens e metamorfoses”. Piracicaba, SP: Ed. UNIMEP (Universidade Metodista de Piracicaba), 2004. Belo Horizonte (verão de 2002 e inverno de 2005). Professor na Faculdade de Educação da UEMG/BH.