1 Eduardo Pellejero (UFRN) Agenciamentos inumanos e naturezas segundas A instituição do mundo na filosofia de Gilles Deleuze Um rapaz recebeu em herança do seu pai apenas um gato e, graças a esse gato, se converteu em perfeito de Londres. Em que me converterei eu, graças ao meu animal, à minha herança? Kakfa, Cadernos em oitavo Uma besta nefasta ronda a filosofia contemporânea. Não é uma presença estranha para a maior parte de nós. Visitante quotidiana dos cachorros da casa, que expurgávamos com uma mistura de horror e de prazer, ou ameaça inominável na obra de Horacio Quiroga, onde escondida numa almofada de penas sugava a vida de uma moça até a morte 1 , eu me lembro dela como rara cifra da persistência e da inumanidade da natureza na minha primeira infância. Eu não sabia, não podia saber que essa mesma besta viria ser (já era naqueles anos) uma das formas mais interessantes de aproximarmo-nos à questão da natureza humana. Sem ir mais longe, terá passado, silenciosa mas visivelmente, sob a superfície da obra de Jakob Johann von Uexküll, que no seu livro de 1934 Dos animais e dos homens: disgressões pelos seus próprios mundos 2 propunha uma descrição do seu mundo, feito de pura exterioridade. E seguramente tomou parte (no duplo sentido de formar parte, mas também de extrair qualquer coisa) da tripla tese de Heidegger sobre o mundo, segundo a qual a pedra não tem mundo, o animal é pobre de mundo, e o homem é formador de mundo. E isolada, em condições de laboratório, deu corpo à vida nua, desprovida inclusive da sua mínima qualificação instintiva, durante dezoito anos sem duração, no ensaio que Giorgio Agamben dedicou ao conceito do aberto 3 . Essa besta, o Ixodes ricinus, mais vulgarmente conhecido como carrapato, ou, se preferem, o carrapato de Uexküll, que não é o carrapato da minha infância, mas uma besta qualificada, também se encontra, muito significativamente, agarrada à obra de Gilles Deleuze, que repetidamente volta sobre o caso para ilustrar o modo em que um mundo pode ser constituído (só para dar uma ideia, lembremos que o ritornello vital do carrapato é