Spinoza em Deleuze Maurício Rocha 1 para Claudia Castro, in memoriam. Um Liceu na França no início dos anos 50: o professor não é muito mais velho que seus alunos, ou pouco parece ser. É dotado de um estilo que desperta, pois suas aulas são movimentadas, leves e tratam de problemas concretos da audiência: o namoro, os esportes, as roupas, mas também a história das técnicas. A filosofia (afinal, a matéria da aula) comparece fluentemente, em meio aos temas da existência cotidiana – pois o ponto de partida é aquilo que interessa pensar, mas que ainda não foi pensado. Ele costuma começar os encontros com digressões sobre suas aventuras diárias no trajeto até a escola, anedotas sem nexo aparente com o que virá adiante. E aparenta estar no mesmo nível que seu público, quando retira uma folha de papel do bolso, a desdobra, e a segura sem nunca a consultar – dá impressão de improviso, de que nada preparou,, sobretudo pelas perguntas que faz, em voz alta, para si e para a audiência. Mas, aos poucos, as articulações do problema em questão aparecem, em uma forma expositiva que procede por repetições, nas quais a perspectiva varia continuamente. É uma experiência de aprender a desaprender, equivocação descontrolada sem outra recompensa que não seja imanente – aprender que não se aprende a pensar, mas que se experimenta o pensamento a partir de um problema que o desnorteia em uma errância criadora... O que, às vezes, parecia significar que ele dizia, entre um problema e outro, entre um conceito e outro: “se vocês acham que a filosofia não serve para nada, não façam filosofia”... Nessa época, segundo a memória dos alunos, o jovem professor costumava passar até quatro meses lendo o início da Ética de Spinoza... (Dosse, 2007: 127-129). Georges Canguilhem dizia que a filosofia ameaça a vida. Não por nos afastar da vida, mas justo por estar perto dela demais para não ameaçá-la – quando, por exemplo, se procura um fim do qual a vida deveria ser um meio, uma razão para viver, o que pode levar a encontrar razões para perder a vida (apud Le Blanc, 1998: 18). O paradoxo é que nada é mais contrário à experiência de quem está vivo do que ver na interrupção da vida um valor e não somente um acidente – ainda que por vezes o sacrifício da vida dê a ela 1 Professor do Departamento de Direito da PUC Rio.