1 SIMONINI, Eduardo. Currículo e Devir. In: FERRAÇO, Carlos Eduardo; RANGEL, Iguatemi Santos; CARVALHO, Janete Magalhães; NUNES, Kezia Rodrigues (Orgs.). Diferentes perspectivas de currículo na atualidade. Rio de Janeiro: DPetAlii, 2015, p. 63-78. CURRÍCULO E DEVIR Eduardo Simonini 1 Tudo o que sucede, todo movimento, todo devir, considerados como fixação de graus, de forças, – como uma luta... (NIETZSCHE, 1966, p. 291). O que aproximaria os conceitos de “currículo” e de “devir” a fim de justificar a relação dos mesmos neste texto? Qual seria um ponto de ligação que colocaria em uma zona de vizinhança dois conceitos aparentemente tão diferentes? Eu diria, produzindo um tipo de vínculo entre os mesmos, que tanto o currículo quanto o devir são atravessados pela ideia de movimento. Em suas origens etimológicas, por exemplo, “curriculum” deriva do verbo “currere” (que significa executar, prosseguir, carregando consigo uma íntima relação com o verbo “correr”) e diz respeito à construção de um caminho, de um trajeto, de um curso; enfim, remete-nos à produção de um movimento; à indicação de um sentido. Por sua vez, ao assumirmos as origens etimológicas da palavra “devir”, temos que esta deriva do latim “devenire”, que vem a significar o movimento de se passar de um estado para outro. Desta maneira, quando me proponho a abordar a relação entre o currículo e o devir, escolho iniciar tal discussão não diretamente pelos conceitos supracitados, mas pelo liame que os conecta; ou seja, pelo movimento. Pensar o movimento foi – e continua a ser – uma preocupação de muitos pensadores, uma vez que problematizá-lo coloca também em cena questões sobre a verdade, a realidade, o tempo e o destino das coisas: a realidade estaria constituída numa linha temporal a fluir num movimento contínuo sem princípio ou fim? Ou o tempo – e consequentemente a realidade – teria um fim determinado, seguindo por um fluir retilíneo de sucessões progressivas e programadas? Ou não existiria o movimento e muito menos o tempo, uma vez que tudo já estaria pré-definido e todas as mudanças se constituiriam apenas em um passe de ilusão? 1 Psicólogo, mestre em Psicologia Social, doutor em Educação, professor pelo departamento de Educação da Universidade Federal de Viçosa/MG. E-mail: simonini@ufv.br