1, 2, 3 a conta que Deus fez?
O numero três é mágico, como aliás tantos outros: o 5, o 7, o 12. Os pitagóricos encontraram
propriedade especiais em quase todos.
Mas agora é o 3 que me interessa.
No pequeno livro Qu’est-ce que la philosophie, escrito por Gilles Deleuze em parceria com
Felix Guattari, os autores consideram que há três domínios onde procuramos a ordem de que
necessitamos para nos defendermos do caos de que fazemos parte. Esses três domínios são a
ciência, a arte e a filosofia,
A luta com o caos, que Cézanne e Klee mostraram na pintura, no coração da pintura, encontra-
se de uma outra maneira na ciência ena filosofia.
Qu’est-ce que la philosophie de Gilles Deleuze em parceria com Felix Guattari
Esses três domínios distintos do pensamento constituem formas de romper o caos em que
vivemos, projectando-o em três planos diferentes – para utilizar a terminologia Deleuze. Para
Deleuze tudo se passa como se o caos em que estamos mergulhados pudesse ser representado
por um mundo n-dimensional, complexo, quase impenetrável. A arte, a ciência e a filosofia
permitir-nos-iam delimitar domínios compreensíveis nesse mundo infinito, a que Deleuze
chama planos secantes, ou seja, utiliza uma imagem geométrica simplificada de três planos
bidimensionais que cortam (secantes) esse caos tridimensional. Cada plano permitiria assim
uma espécie de projecção bidimensional do caos tridimensional. Essas três projecções permitir-
nos-iam idealizar o caos, abstraindo a sua complexidade. Em rigor talvez pudéssemos falar de
um mundo n-dimensional (n=?) que reduzimos a tridimensionalidades, porque não somos
capazes de perceber mais do que três dimensões, ou quatro quando muito, se considerarmos o
tempo.
A ciência, a arte e a filosofia para Deleuze constroem passo a passo o nosso conhecimento,
através da criação de novas entidades – teorias, objectos estéticos e conceitos – concretizando,
cada uma das três áreas, criações (obras) que as outras não são capazes de realizar, mas de que
necessitam para fazer sentido.
Para alguém, como eu, que tem formação académica na área da ciência e que há muito dedico
parte do meu pensamento à fotografia, à escrita e à reflexão sobre o que é a arte e que sempre
considerei existir uma grande proximidade entre arte e ciência, é agradável ler isto.
© Renato Roque, 2014